O novo clima dos protestos populares

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A grande movimentação que se viu no país em 16.8.2015 mudou ligeiramente o foco. Continuou a falar em impeachment, mas atenuou essa narrativa. Lideranças e políticos profissionais começaram a insistir em ‘renúncia’ da presidente Dilma Rousseff.

Informados que o instituto jurídico constitucional do impeachment é bastante complexo e amarrado a fatos precisos, passaram, muitos manifestantes, não mais a querer tirar na marra a presidente. Mas invocam uma calamitosa administração do governo para forçar sua saída ‘voluntária’.

Há, aí, um reconhecimento de erro da plataforma ‘anterior’, da oposição, que só falava em impeachment. Mas isso pouco importa. O que chama a atenção é a ‘substituição’ para a nova narrativa – a renúncia.

Parece ficar em xeque que, se efetivamente, a nova plataforma da ‘renúncia’ vier a substituir o impeachment, inclusive por cabeças ‘ilustradas’ da oposição, um fator será o grande combustível de tudo isso: a intolerância.

Querer que um presidente renuncie porque a situação do país está difícil ‘é’ querer trocar um brinquedo que se comprou espontaneamente e quando se chegou em casa, numa análise mais profunda, não gostou do resultado da brincadeira. Este tipo de exagero comparatório do argumento beira ao absurdo, sabe-se, mas a intolerância com um governo democraticamente eleito que por ‘não se gostar’ 6 meses depois, é também uma intolerância absurda.

Esta atual sociedade mimada do consumo, que, por exemplo, o aluno precisa ter ar-condicionado na sala de aula, elevador para subir 3 andares e não copia mais nada no quadro, fotografa, em contraposição ao estudante de antigamente que subia desproblematizadamente 6, 7 andares por dia para assistir aula, é a sociedade da reclamação. Reclama-se de tudo. E o resultado dessa intolerância é a explosão de ações judiciais propostas na tentativa de indenizações, por qualquer coisa. Ou seja, o nível social de aceitação à adiversidade ficou baixíssimo. Uma imensa e esmagadora maioria da classe média brasileira, se tornou autoritária, intransigente, reclamona, discriminatória e intolerante.

É mentira se dizer que a discriminação diminuiu. O famoso vídeo da professora Marilena Chaui sobre a classe média no Youtube é um triste retrato de uma sociedade brasileira que, quando se reposiciona financeiramente pratica atos totalmente antiéticos e próprios da intolerância.

Por esta ‘lógica’ popular de se pedir impeachment ou renúncia, nitidamente reclamona de uma sociedade intolerante, há, isso sim, ódios figadais escondidos para com o Partido dos Trabalhadores. Esses tais ódios nem são o xis do problema. Cada um que odeie o que quiser e quem quiser. Não se há aqui na hipocrisia de dizer que as pessoas são ‘do bem’, essa fórmula hipócrita da moda. O problema é que a democracia tem seus tempos, princípios e regras que precisam ser respeitados. Um mandato eletivo, qualquer que seja, PSDB, PT, PSOL, DEM etc. precisa ser respeitado.

Se as coisas estão ruins ou péssimas, cabe à população [também] contribuir com o exercício de uma cidadania participativa para a melhoria. Não meramente querer ‘trocar’ o presidente. É a mesma cultura mimada imediatista de resultado que troca várias vezes por ano um técnico de futebol de um time.

O governo de Dilma Rousseff parece ter cometido erros diversos. As consequências explodem na população como um todo. FHC cometeu erros diversos e foi ridicularizado com cara de hipopótamo por praticamente toda a imprensa em charges.

Está faltando maturidade democrática à sociedade para respeitar o mandato e respeitar os próximos mandatos, seja de quem for.

Está sobrando cinismo a esta ‘oposição’ legislativa velhaca que só sabe surfar numa onda popular de dificuldade que não é sua, mas do povo que não ganha os seus salários absurdos, não tem suas mordomias indecentes, suas regalias infames, seus benefícios ‘legais’ e suas comissões prostituídas em cuecas, meias e calcinhas.

O Brasil elegeu Dilma Rousseff. Se não houver um fato jurídico para impeachment, ela tem que ser a presidente até o último dia do mandato. Se na próxima eleição o Brasil escolhesse aquela coisa estranha de Collor, teria que respeitar até o último dia igualmente.

A sociedade não pode só querer brincar de democracia e fazer passeatas na orla de domingo. Tem que respeitar suas regras. OBSERVATÓRIO GERAL.

[Artigo republicado no BRASIL 247]

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Categorias:Política

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