O sequestro, o garotinho e a falta de vergonha do Brasil

A cena filmada em 8.11.2016, em Duque de Caxias, RJ, do sequestro em que a criança ficou atônita sem saber o que fazer, e foi abandonada, seria a gota d’água num país ‘sério’ para que o Estado, oficialmente, se revoltasse e quisesse mudar tudo.

 

Mas no Brasil em que as ‘autoridades’ em seus feudos só querem saber de aumentos, benefícios, vantagens e serem tratadas por essa coisa patética do superlativo, ‘sapientíssimo’, ‘doutíssimo’ etc., nada mudará.

 

No Brasil que funcionários de hospital do câncer se apropriam das doações por meio de empresas fantasmas, contas (bancárias!) também fantasmas, nada mudará.

 

Neste mesmo Brasil que grande parte da sociedade é a primeira a ser intolerante, não ter educação e se puder, num cargo, ofício ou emprego público ou privado se esparrama na corrupção, nada mudará.

A crítica afundante, comparatória ou humilhativa do Brasil, que fala mal do país e de seu povo, principalmente quando ele é ‘comparado’ a Miami e outras futilidades semelhantes quaisquer, sempre satisfez à direita e seus preconceitos portáteis de plantão. Essa mesma crítica, por outro lado, sempre causou furor na esquerda, que tenta ‘querer’ crer que este povo vale ouro, é lindo e maravilhoso. Mas não é bem assim.

 

Tudo bem que bandido brasileiro em geral é um ser boçal, invariavelmente feio, mentalmente estúpido que vive escondido num barraco podre com uma vida imbecil. Tudo apropriado ao seu nível mental e ‘intelectual’. Exagero? Veja de novo o filme Tropa de Elite e analise aquela escória brasileira.

 

Mas a cena do garotinho de ontem – sem pieguices ‘do bem’ por se tratar de criança –, praticamente lembrou os horrores nazistas que só são conhecidos hoje por estudo, não por vivência, em que pais eram separados dos filhos por outros energúmenos e facínoras da História.

 

A cena do sequestro de Duque de Caxias não retrata só o que se entende banalmente por ‘criminalidade’. É óbvio que não. É a ausência de conceitos valiosos, educacionais, morais, éticos, de cidadania, de maturidade, que faltam em bandidos, mas também faltam em muitos da sociedade.

 

Querer esses bandidos como ‘bandido bom é bandido morto’ é uma bravatinha oral que sequer vale alguma coisa, e nunca resolveu nada. Mera verborragia sensacionalista que esconde, por cinismo ou ignorância, problemas profundos em se educar uma gente, minimamente, para que essa gente não continue como ‘bicho’, como pós-antropoide.

 

A polícia cada vez mais enxuga gelo e esse cinismo não foi inventado pelos agentes inferiores dos aparelhos policiais. Mas por vaidosas políticas de gabinetes que permitiram a sedimentação lenta e poderosa, por exemplo, do PCC. Essa sigla que as redes de televisão fingem que não existem e fazem malabarismos para não dizer o nome.

 

Qualquer advogado, promotor, policial ou juiz que trabalha ‘no crime’ conhece a realidade cancerígena e totalmente dominada pelo crime organizado do sistema carcerário. Secretários de política penitenciária invariavelmente fracos e receosos de perderem o emprego, somados a que cedem para não permitirem ‘bagunça’ no sistema prisional, para não gerar ‘problema’ para o governador, contribuíram com esse maquiavelismo lucrativo para que o novo crime organizado se sedimentasse. Isso é indistinto, se Rio, São Paulo, Maranhão ou outro lugar.

 

Falange Vermelha, do Rogério Lemgruber, da Ilha Grande, RJ, aquela da época da ditadura militar, virou historinha em quadrinho.

 

Isto que vespertinos programas de televisão chamam por ‘criminalidade’, Datenas e outros astrólogos do Direito Penal, não interessa ao educador, ao pensador. Interessariam políticas óbvias e mínimas de longo prazo – não se ‘educa’ em finais de semana. Esta trans-formação exige décadas. Mas os políticos brasileiros e as políticas públicas só existem trianualmente, depois disso vem a reeleição.

 

A cena do garotinho deveria envergonhar o Brasil. Como aquela criatura tosca, esta semana, que foi ‘se’ fotografar (…) no museu português, andando para trás, e destruiu uma obra de arte de 300 anos. O problema é que grande parte da sociedade brasileira perdeu o pudor ou o tônus de se envergonhar, e de querer mudar verdadeiramente.

 

O tráfico de drogas venceu no mundo. O terrorismo também venceu. E essa ‘criminalidade’ infame e despudorada no Brasil também venceu. Isso somos nós, em pleno século 21.

 

Observatório Geral

[Artigo republicado no BRASIL 247]

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