A política brasileira é uma patifaria e ninguém respeita

 

 

Ato 1. A roubalheira. Saia à rua e pergunte rápido a qualquer um: você respeita a política brasileira? Não vai se surpreender. A pergunta soará óbvia, ou monótona demais.

 

Mentes primárias ou cínicas por aí tentam ‘proteger’ a política brasileira. Invocam um utilitarismo piegas de que à negação da política viria a ditadura. Que estapafurdice pensante.

 

Repare que aí há comparação de fatores bem diferentes. Política brasileira é ‘uma’ forma de fazer política. Sim, homogênea, patrimonialista, ladra, autorremunerada nababescamente e sem ética. Agora também reunindo-se às madrugadas. É mero dado histórico. Já ‘a’ política no genérico, no mundo e como ‘instituição’ é claro que é outra coisa.

 

Este extremismo de ‘política ou ditadura’ não cabe, é burro.  Equivale ao ditatorial ‘Brasil ame-o ou deixei-o’. Esquecendo-se de que haveria um Brasil, ame-o e mude-o!

 

Criticar a política brasileira ainda é certo romantismo. É achar que ela com essas criaturas mefistofélicas que estão aí, e sua prole já eleita, pode ‘curar’. Seria o que Hegel propunha como solução para o desejo, o amor. A que Schopenhauer a respeito do anseio humano respondia: deve ser aniquilado.

 

A política brasileira perdeu a vergonha e se firmou como o que Habermas (Mudança estrutural da esfera pública, p. 43) diz, ‘estamento dominante’, para apontar a exclusão do povo e revelar o antagonismo numa nobreza, dignitários religiosos, reis etc. Se com Dilma se conheceu a incompetência, com Temer o cinismo fez se rasgar a fantasia. Nesses aí, ninguém mais se salva.

 

Ato 2. O PT e a esquerda. Haverá uma esquerda e vida em esquerda, óbvio, independente do PT. Ainda que o PT morra de ciúme disso. A esquerda é imensamente maior que o PT, um partido que fez muito pelo país, mas não soube resistir ao patrimonialismo da política brasileira.

 

Se o PT é um partido, a esquerda é um sonho. Se qualquer partido potencialmente aventureiro, mesmo de esquerda, propuser o resonhar no Brasil que se viveu na década de 1990, não se precisará mais de 15 anos para se perceber o logro.

 

Norberto Bobbio (Direita e esquerda, p. 64) ensina que a crise soviética não representou o ‘fim da esquerda’, mas apenas de uma esquerda determinada, gerando a conclusão de que há diversas esquerdas e diversas direitas. O mesmo pode e deve ser pensado no Brasil.

 

Detratores de plantão da esquerda ainda não se limparam totalmente do estigma pensante de que esquerda seria somente PT. O tempo mostrará. Lideranças novas já começaram a aparecer. Se a Lava Jato não os prender, claro.

 

Sejam sonhadores, teóricos ou pensadores da direita ou da esquerda, aí estão os que precisam ser ouvidos e reparados. Aí está a produção, a fonte de uma intelligentsia que delimita marcos, estatui fronteiras, ensina, instiga e corrige. Pode ser Roberto Campos, Leonel Brizola, Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes. Mas também pode[ria] ser os vivos FHC ou Lula, desde que conseguissem resistir a não subir num onírico palanque.

 

Ato 3. A sociedade. Alain Touraine (Após a crise, p. 61) mostra que a opinião pública não exerce grande influência frente ao poder de governantes. Cita Keynes que sugere que a reconstrução é possível, mesmo quando ‘algumas dezenas de aventureiros’ ou ‘algumas centenas de traders, remunerados em centenas de milhares de euros’ destroem o país.

 

Dezenas de aventureiros. Questão 1: Seria essa a fisionomia do governo atual? Questão 2: A sociedade brasileira estaria perfeitamente dentro desta não grande influência frente ao poder dos governantes?

 

O governo Michel Temer que em 6 meses perdeu 6 ministros por suspeitas sérias, e só conseguiu chegar ao poder após derrubar Dilma, tinha um dever de casa muito nítido: deveria ‘dar o exemplo’. Tudo bem, perdoe-se o primarismo piegas no argumento. Mas deveria. Agora com a delação da Odebrecht, Temer consegue piorar sua situação pessoal e, sim, veste a roupa de aventureiro. De um político que apenas tenta ver se consegue se safar.

 

Quanto à sociedade, na questão 2, sua influência ainda é insignificante mesmo. Este não é apenas um fenômeno europeu ou americano. Não há que se iludir com manifestações de rua que até conseguiram catalisar milhões de pessoas. Mas os políticos brasileiros, os que continuam a se reunir nas madrugadas, dão provas materiais de que gente, ruas, sociedade, povo não os intimida.

 

A esquerda extra-PT ainda não tem visibilidade própria, primeiro porque não tem poder, funcionalmente, de romper com o PT, segundo porque ainda se vê refém de um sistema ladro que ninguém sabe a quantos pegará, numa delação macro natalina que vem por aí.

 

A política brasileira segue essa crise ética em sua ossatura, suas veias e na própria concepção. Avassaladoramente sobre todos os partidos, entidades e sistemas.

 

E a sociedade paga a conta sem se dar conta da imoralidade que isto representa. OBSERVATÓRIO GERAL.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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