A sociedade vive o porre de escândalo

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Homenageando Dercy

 

Jornalistas sabemos que a imprensa vive de 5 conceitos: medo, pânico, caos, escândalo e terror. Em toda manchete ou primeira página precisa haver um desses ingredientes. E, claro, ele é um passaporte imediato para a mentira. Ou, minimamente, para a distorção aumentada, para pior, dos fatos.

 

Há certo desconforto com o fato de toda a imprensa saber que se transformou em imprensa ‘marrom’, diferentemente de décadas passadas quando só uma parte dela ‘era considerada’ assim. Mas em pescaria de barco que está dando peixe não se enjoa. Jornal que está vendendo não mexe em sua fórmula.

 

Uma explicação de índole sociológica para isso seria que grandes e ‘sérios’ jornais e TVs perceberam que audiência e venda não têm que ver com qualidade jornalística, mas com quantidade de leitores e assinantes. E jornais e TVs banda-B vinham nadando de braçada no populacho, ou seja, quantidade. Aí, não seriam estes que ‘melhorariam’ sua qualidade. Foram os de cima que desabaram. A Rede Globo, por exemplo, nos domingos à tarde, ‘virou’ esse pastelão patético de quinta. Mas fidelizou bolsões imensos de gente. Isso meramente ‘pontua’ na audiência. E neste quesito é exclusivamente volume, quantidade de gente que importa. Simples assim.

 

É difícil saber quem nasceu primeiro. Se esta ‘inoculação’ jornalística maquiavélica de derrubar a qualidade para vender, ou se uma demanda social louca com tudo que represente o pior em termos de notícias e imprensa sensacionalistas.

 

Um dos grandes problemas é o reflexo disso tudo nas notícias e tratos de informações que ‘deveriam’ ser sérios. Com a difusão do ódio na internet do tipo fulano comprou um produto e ele precisou de reparo, a ‘crítica’ deste fulano na internet será de que a empresa é mer.., o proprietário é um imbecil e há que se criar um movimento para se fechar o estabelecimento.

 

O resultado é que uma sociedade assim ‘não se sustenta’, seja isso lá o que for. Consumindo apenas escândalo e destilando ódio. Não há um ‘tecido social’ prestável, não há uma ‘cultura’ sedimentável que possa manter essa gente de forma sadia pelo tempo necessário à ‘continuidade’ cultural.

 

Nunca considero nas minhas análises a ‘religião’ – um fator sério na Antropologia, reconheço-. Há patifarias de sobra neste segmento do mito, deuses e isenções tributárias. Mas já em 1936, Sérgio Buarque de Holanda, na obra Raízes do Brasil, comparando a sociedade brasileira com a inglesa, explica que no Brasil, a ‘religiosidade de superfície’, com seu ‘culto sem obrigações e sem rigor’, numa forma de fé ‘democrática’ que ‘dispensava no fiel todo o esforço, toda diligência’, acabava gerando que ‘ninguém pediria, certamente, que se elevasse a produzir qualquer moral social poderosa’. Pois que esta ‘espiritualidade, transigente, por isso mesmo que pronta a acordos’ chegava ao cúmulo de fazer com que ‘os homens mais distintos’ participassem de solenidades sérias ‘como se fossem a um folguedo’.

 

Muita gente não ‘gosta’ de ouvir críticas à sociedade brasileira. Acha que não é ‘positivo’. Algum crédulo – ou comercialmente cínico – da TV brasileira cunhou que ‘o brasileiro não desiste jamais’. É o que esta sociedade referida por Holanda, quase cem anos depois, precisa para se pendurar ‘malandramente’ e produzir pouco. Muito pouco, por exemplo, se comparado a um trabalhador alemão. Alguém já gritará: mas que estupidez, as comparações foram ‘proibidas’ nas análises. Viva Hitler metodológico.

 

Agora, em épocas de internet, o caldo não entornou apenas. Vive explodindo. Nenhuma indicação mais, de qualquer governo, para ministro, chefias etc., seja da direita, da esquerda, do centro ou de qualquer posição geográfica inimaginável presta, serve. Vive-se o patrulhamento, a perseguição de uma sociedade que parece apenas perseguir figuras públicas. Para querer derretê-las. Mas quem ‘prestará’, se agora se descobriu a crítica pelo ódio na internet? Uma coisa se sabe, quem acaba – continua!- pagando o preço é a sociedade como um todo.

 

Uma ‘educação’ com esses histrionismos e ódios não é em nada um modelo de pais para filhos, de amigos para outros amigos, de professores para alunos. Uma sociedade com torcidas de futebol que precisam ser contidas por tropas de choque militar não cria cultura sadia em nada.

 

A crítica, a percepção fina sobre a sociedade, sobre o Outro, sobre a cultura, os modos sociais, continuam sendo dos mais valiosos fatores para evolução social. Certas ou erradas, as análises sempre contribuem em muita medida. Mas parece haver uma impressão já fundamentada entre observadores sociais, que se vive um porre do escândalo, do populismo, da demagogia, da esmola cultural visível e publicizável na internet para com as camadas mais sacrificadas da população, as mais miseráveis e desgraçadamente as menos críticas.

 

Muitos se locupletam disso. Prefeitos fantasiados, governadores larápios, imprensa ávida por sensacionalismo, empresas malandras produzindo porcarias e artefatos dolosamente calculados para quebrar e, paralelamente e talvez explicando tudo isso, a tal da ‘crise ética’. Aquela que cada um não se preocupa em fazer o seu melhor, sem precisar fotografar o seu feito; em ser mais educado e gentil com o seu vizinho, com o seu parceiro, com o motorista ao lado, com o estranho na rua, e não precise fotografar sua gentileza. Quanto exibicionismo.

 

Enquanto o Brasil não olhar para dentro de si, com humildade, com seriedade e paz perante cada um de si e perante a pessoa está imediatamente ao seu lado, sem as megalomanias publicitárias dos Galvões Buenos de criar um país delirante, a sociedade continuará a ser esta sociedade do porre de escândalo, dos autorretratos de ‘lindos e tesudos’ na internet e de uma crítica sempre vinculada ao ódio e ao rancor. Haverá segmentos que saberão surfar comercialmente nisso, com uma massa acrítica continuando a pagar o preço, os ultrajantes impostos a um Estado nitidamente desonesto com suas ‘autoridades’ ricas, e uma cultura, como ensina Holanda, talvez sem uma ‘moral social poderosa’.

 

Como vai ser quando o porre passar? Jean Menezes de Aguiar / OBSERVATÓRIO GERAL

 

[Artigo republicado no BRASIL 247]

 

 

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