A sociedade da nova ética das delações com prêmios

delac3a7c3a3o-premiada

Talvez a corrupção brasileira, histórica entre o Estado e grandes empresários, esteja apresentando um novo padrão de comportamento para o mundo, após o advento das delações premiadas.

Delatar alguém – no padrão clássico de acusar secretamente para receber um benefício- até aqui foi um comportamento vil, falta de fidelidade ou condição deplorável de um parceiro. Fosse isso no mundo dos negócios ou no crime. É como se houvesse uma ‘ética’ da não delação, no sentido de que não se dedura um companheiro.

Não se sugere qualquer equiparação entre esses 3 mundos fenomênicos distintos: o dos negócios, o do crime e o do pensamento.

O mundo dos negócios tem seus juízos morais próprios, às vezes perversos e infames, ainda que a sociedade não ‘criminalize’ muitos de seus comportamentos.

Já o crime em si se torna ‘fácil’ de saber o que é, obedece a um catálogo prévio de incidência que não pode tergiversar sobre uma tipologia fechada, e tudo que ali estiver, seja por comportamento central ou por qualquer ligação paralela ou circunstancial, será considerado por esta mesma sociedade, aí sim, reprovável.

O terceiro mundo, intelectual do pensamento, seria um calibrador inferencial ético e moral, balizador de todos os outros mundos, pela possibilidade de lhes pensar, conhecer, separar e conceituar. Aqui, por exemplo, o filósofo Ronald Dworkin, no livro A raposa e o porco-espinho: justiça e valor, ensina o uso do juízo ético – uma proposição sobre o que as pessoas devem fazer para viver bem; e do juízo moral – uma proposição sobre como as pessoas devem tratar as outras pessoas.

Cada um destes mundos teria valores próprios. Nesta atualidade do ainda inconceituado século 21, em que pese seu lado histriônico e espumoso, parece haver novos padrões éticos e morais aceitáveis por uma maioria. Pelo menos esta maioria não tem se mostrado tão molestada com eles.

O jogo da troca existente nas delações que seria algo originariamente promíscuo entre o Estado concededor de vantagens, e a patifaria de um delator – agora em efeito manada-, parece ter ganhado ares de normalidade social. Principalmente com delatores bem vestidos, tranquilos e socialmente bem ‘encaixados’ numa classe mediana burguesa que parece ter resolvido não querer  desqualificá-los como ‘um dos nossos’. Nessa psicanálise-elite esses sujeitos não seriam criminosos, mas colaboradores para uma limpeza ética. Mais, ainda se arvoram a juízos de valor de reprovação sobre a política. Como se pudessem reprovar alguma coisa em suas vidas podres.

De novo há obediência à ‘leveza’ de certos crimes que não envolvem facadas, drogas e violência em geral, optando a sociedade, como sugere Sören Kiergegaard há 160 anos, no livro Tremor e tremor, em escolher como utilizar a arte de se iludir a si própria. No tempo presente, Amartya Sen em seu novo livro Identidade e violência, pede um mundo menos aprisionado pela ilusão.

Uma questão que talvez incomode a alguns pensadores seja a cuidadosa normalização premiada nas delações, da condição de ‘criminoso’ do agente.

Será que a mesma sociedade que aceitou regular na lei a delação de um criminoso, aceitaria fali-lo financeiramente – mas de verdade? Ou continuará, por exemplo, o padrão de o sujeito 1) assaltar a Previdência Social, 2) conseguir subtrair 90 milhões de reais, 3) a polícia só resgatar a metade, 4) o sujeito ficar meia dúzia de anos de sua vida, preso, e 5) ser solto com a montanha de dinheiro mais ou menos resolvida para gastar malandramente com os seus, e 6) isso seja considerado ‘normalidade’ jurídica?

Há questões que parecem não ter ido a sociedade a fundo. Padrões de moralidade são historicamente mutantes. Em épocas de consumo imediatizado nos celulares que jamais podem armazenar o histórico das conversas – para muitos o delito social mais-grave-do-mundo nesta sociedade da mentira –, a ideia de criminoso também se torna fútil e ahistórica. O criminoso ‘serve’ para passeatas e máscaras [divertidas!] de carnaval. Mas talvez, no Brasil, de novo, não se estejam incorporando novos valores substanciais de reprovação social séria, próprias de como existe no 1º mundo. Dworkin afirma que ‘o conceito de dignidade foi rebaixado por seu uso frouxo e excessivo na retórica política’.

Já se perdeu a conta de quantas ‘autoridades’ dos governos brasileiro, de primeiro escalão são investigadas criminalmente em safadezas milionárias. Mas a sociedade parece só se horrorizar por 15 minutos. O resto vira filminhos de piada em whatsapp que não querem dizer, em absoluto, nenhuma indignação séria, transformada da sociedade.

A ‘vida’ pode ter perdido essa ‘seriedade’ sim. Talvez o que importa agora seja o lado lúdico. E a educação, o conhecimento, a ética, tudo pode estar se transformando em filminhos de filosofia primária e rasteira – mas ‘divertida!’- de whatsapp.

Será que ‘o gigante acordou’ não seria uma versão dândi de ‘o gigante continua paquidérmico e sonolento’? Esse ufanismo balofo só agrada a tolinhos de plantão; não explica absolutamente.

A falência do modelo político brasileiro, do modelo mentiroso de governo e mesmo do modelo de Estado atual existente no país continuará a enganar desinformados que, desgraçadamente compõem uma maioria avassaladora, neste tecido social tão intelectualmente comprometido.

Há uma assimetria entre o que está sendo descoberto de criminoso e o quanto a sociedade se ‘revolta’. A palavra é ‘feia’ para uma elite pensante meio ataráxica e complacente. A velha fórmula de que bastava um domingo no Maracanã para que a sociedade da ditadura esquecesse tudo, continua niquelada, polida e verdadeira.

Jean Menezes de Aguiar 

Anúncios


Categorias:Cultura

%d blogueiros gostam disto: