A sociedade não explica os políticos brasileiros

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O Estado brasileiro transborda em ‘autoridades’. Em todos os níveis, cargos e atividades. Muitas, inúmeras, são supérfluas e ociosas. Não pelo que não fazem, mas pela absoluta ausência de lógica utilizada para se parir a função, o cargo. Ou safadeza para atender a um apadrinhamento esbugalhado qualquer.

 

Já reparou que ministro de Estado não precisa mais ser ‘técnico’ em nada? Qualquer um agora é. Basta ser do partido político certo.

 

Crédulos costumam sustentar que se o político brasileiro é safado, seria um mero reflexo da sociedade, pelo fator ‘voto’. Esta equação não se sustenta. Nem na teoria, nem na prática.

 

O descolamento da cultura, já sedimentado – nesse estamento das ‘autoridades’ públicas brasileiras-, em relação à sociedade é impressionante. Mas também é vergonhoso, afinal, quem paga toda a conta é exclusivamente o povo.

 

No plano teórico os sociólogos sugerem pistas interessantes. Niklas Luhmann demonstra que a política não se presta mais como autoridade suprema e central a orientar a sociedade. Helmut Willke ensina que dos três modelos históricos de controle social – a política democrática, o mercado e as hierarquias – nenhum deles gera influências significativas a manter outros subsistemas sociais. Em suas próprias palavras, a política deixa de ter a ‘responsabilidade pela produção e salvaguarda dos bens coletivos’. Fica claro um descolamento entre o agente político e a sociedade que poderá ser identificado por direta ausência de legitimação social.

 

Ocorre que se deu uma rapidez e diversidade da vida em sociedade. São novos atores, novos cenários, novos direitos inventados pelas gentes e novas relações. Muito de tudo isto ainda é fortemente resistido pelo arcaico e moroso sistema jurídico, mesmo com uma aplicação por juízes pretensamente conforme à modernidade; mas nunca efetiva no todo. Somem-se retrógradas cabeças pensantes e preconceituosas no Estado de um modo geral. O esgarçamento sociedade-políticos brasileiros é fratura exposta, totalmente evidente, gerando prejuízos sociais imensos.

 

Toda essa situação acima se dá no plano horizontal da paisagem social, considerando-se o aspecto material da análise: a política e seus senhores com imensas dificuldades em atender anseios populares progressistas, e sem saber qual lente corretiva usar para olhar um presente já futurizado e um futuro imediato.

 

Já no plano funcional, ou subjetivo dos agentes políticos, o abismo entre a sociedade e essas figuras repetitivas e eternas dos políticos brasileiros se mostra criminoso e avassaladoramente antiético. Mas sobretudo patife.

 

Pessoas trabalhadoras deste país não se dão aumentos salariais como políticos e autoridades. Não se dão feriados, folgas e não inventam lazeres em plenos dias úteis. Não se dão automóveis com placas especiais, motoristas e seguranças. Não se dão imunidades, impunidades, regalias e facilidades. Não se dão apartamentos funcionais. Mas principalmente não se dão salários indecorosos para uma realidade pobre brasileira, ultrapassando a casa dos 30 mil reais. Tudo isto para não falar na grande mentira do ‘salário’, já que as verbas-safadeza conhecidas como ‘benefícios’ e ‘auxílios’ arrombam outra mentira. A do teto constitucional.

 

Quem achar que um político ou ‘autoridade’ precisa de tudo isto para trabalhar, compare com um igual da Suécia, Dinamarca, Noruega, França etc. E jamais se invoque em ‘metodologia’ primária que o Brasil não é a Suécia. Por todas essas indecências do Estado brasileiro chegando a inocular uma ‘cultura’ no povo, fica óbvio que não é mesmo.

 

Fica claro que não há qualquer simetria entre um político brasileiro e suas mordomias, e o povo. As subnarrativas disso são a total ausência de vergonha na cara; as negociatas; a corrupção; mas sobretudo a certeza [de novo, culturalizada] de que eles, políticos, não são, jamais, o povo brasileiro que pega ônibus e trabalha todos os dias.

 

Soa infame querer explicar o histórico vezo cultural dos políticos brasileiros apenas com o voto, como se a existência dessa horda cultural ligada ao poder, esse estamento infame, fosse responsabilidade do povo. Insista-se no elemento antropológico da cepa cultural que a história brasileira mostrou como própria dos políticos e sua sanha em patrimonialidade com o Estado. Representada, por exemplo, há mais de 30 anos por Chico Anísio com o personagem do bordão ‘eu quero que pobre se exploda!’.

 

À sociedade brasileira façam-se todas as críticas possíveis e cabíveis, até para que melhore. Mas a distância anos-luz da desfaçatez política, esta cultura própria dos ‘palácios’ – que cafona, que patético-, desnuda um político brasileiro totalmente desmerecedor de qualquer respeito.

 

Não se tenta aqui invocar qualquer ode a ditaduras, intervenções militares e outras imbecilidades congêneres. Nem se tenta dizer que ‘a’ política não seria mais um elemento essencial para o jogo da revelação de valores, manutenção de direitos e um tipo de seguridade nacional que jamais deixará de ser necessária. O problema é a corja. Não há outro nome. Para desgraça continuada do Brasil, não há.

 

O que fazer? Dos diversos ‘fatores’ estudados pela Sociologia, como movimentos sociais, sociologia urbana, sociologia da juventude, imigração, ocupações e educação, a lista é de François Dubet, o último deles, a educação continua sendo a única saída. Principalmente em países como o Brasil, malandro, esperto, ladro, surrupiador, corrupto, que não pode mais reprovar alunos, ops clientes etc.

 

Uma sociedade informada e ética, mas também liberta de dogmatismos obscurantistas, conservadorismos autoritários e fundamentalistas, populismos e salvadores de plantão só será efetivamente criada pela força da educação. Não há outra dinâmica social possível.

 

Enquanto a educação não se firmar como a única saída, essa classe de políticos-horda continuará a se refestelar com semanas inteiras de feriados, fisiologismos anárquicos que nada têm que ver com a sociedade.

 

No fechamento da matéria, soube que a Assembleia Legislativa do meu sangrado estado carioca livrou Picciani e turma da cadeia. Não é uma festa?

 

Observatório Geral / Jean Menezes de Aguiar

[Artigo republicado no BRASIL 247]

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