Lula condenado não representa o fim da esquerda

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A direita anda alvoroçada, com faniquitos ideológicos achando que com o fim de Lula há o fim da esquerda. Talvez nem seja um engano, apenas uma malandragem episódica.

 

Lula até chegou a representar, ou aglutinar, historicamente, ‘a’ esquerda no Brasil, basicamente por 3 fatores.

 

O primeiro, a luta necessária contra o caldo cultural da ditadura que custava a desaparecer, ostentando fervura para continuar a gerar prejuízos sociais; isso já muito tarde, durante toda a década de 1980 e ainda início de 90.

 

O segundo, a militância petista e mais que esta, efetivamente toda a esquerda fragmentada de então que se concentrava em Lula, ante seu projeto à época de conseguir dar uma cara de união às esquerdas.

 

O terceiro, a necessidade de ampliação dos direitos civis que a direita em hipótese alguma aceitava. Aí vêm reconhecimentos de ordem vária. Gays, indígenas, união estável, ampliação de direitos trabalhistas e do consumidor e uma série de direitos constitucionais que poderia vir a ser interpretada para um lado ou para outro. Aqui, apenas para se lembrar, Sarney e Collor esbravejaram que com a Constituição de 1988 o país ‘ficaria ingovernável’. Veja-se o clima tardio de uma então cultura reacionária requentada.

 

É perfeitamente correto o entendimento que o historicamente esquerdista Fernando Henrique Cardoso sedimentou, no plano político-ideológico – apenas para ficar nele-, um bom terreno para Lula. Se Lula representava um pavor, à época, para militares e conservadores, FHC descolado do sindicalismo, mostrava-se, aí, para os eternos reacionários, um monstro já domesticado.

 

Mas se Lula recebeu um país facilitado, o grande ganhador dessa situação histórica nem foi ele isoladamente, ou mesmo seu projeto de governo. Foi o povo brasileiro que conseguiu viver uma serenidade econômica então alvissareira.

 

O trágico cenário – repita-se, para o povo! -, das diversas ocorrências policiais que o projeto Lula-Dilma se meteu, comprometendo toda uma ideia de socialização dos direitos, talvez represente desde o suicídio de Getúlio, o maior pesadelo ideológico do país, superando a renúncia de Jânio ou mesmo a virada militar de 1964. O suicídio e a renúncia foram ‘instantes’. A instalação da ditadura em 1964 também foi, mas teve a graduação temporal de piorar a cada ano. Já a perda da esperança no projeto petista começa com a dificuldade de governança de Dilma para culminar com uma pauta totalmente desmoralizante que é a pauta criminal na Lava Jato. Isto é gravíssimo.

 

A entrada da Lava Jato no Partido dos Trabalhadores não ceifou apenas a credibilidade do partido ou de quadros principais ligados a ele, sepultou e deixou pasmada toda uma gente que nutria uma esperança até salvívica, vá lá, naquela ideia, naquelas pessoas. Muitos continuam não querendo saber, mantêm-se presos ao Lula-santo, numa espécie de canonização do presente vivo. Nem há que se julgar esses fiéis de um Lula-Deus, afinal muitos no país obtiveram muito – para si e suas famílias- de um projeto sonhático belíssimo de Estado que, no final mostrou-se, desgraçadamente, irreal. Como a esmagadora política brasileira em que a mentira é a moeda mais cara aos utentes.

 

Chega-se a este presente patético, de malas de dinheiro, de lideranças políticas presas, sendo que para muitos a consciência do presente representa a tragédia. O passado recente foi bom demais. Por outro lado, é o próprio presente que as vezes quer enganar a todos, mostrando suspiros de salvação. Mas as intermináveis operações policiais que puseram todo o país político nas contas bancárias de corruptores lembram que praticamente nada se salva.

 

Lula cada dia mais, atolado, como réu criminal, em processos diversos. Quem milita na área penal sabe o que representa uma denúncia do Ministério Público e seu recebimento, sendo que contra Lula há condenação. É de se admirar como Lula ainda possui têmpera para bradar o discurso da perseguição.

 

Este discurso da perseguição, na pessoa de Lula, ganha um relevo sério para estudiosos, ainda que num plano teorético. Habermas, em sua tese de pós-doutorado, Mudança estrutural da esfera pública, cita Burke, ensinando que não é só o odioso ramo da taxação que encontrará resistências, ‘nenhuma outra parte do direito legislativo poderá ser exercida sem considerar a opinião geral’.

 

Talvez o que habite, verdadeiramente, na cabeça ou no coração de Lula seja a ‘infâmia’ de ‘ter que responder’ (…) por situação criminal quando se vê como um autêntico salvador do povo brasileiro, ou quando grande fatia dessa ‘opinião geral’ se lhe é amplamente favorável.

 

O contraponto disso, obviamente, é que há leis, há uma ordem jurídica e isso vale indistintamente para todos. Lula sendo ou não um salvador autêntico, o fenômeno do processo judicial, com todas as suas fiscalizações advocatícias e estrutura constitucional de ampla defesa não para, e causa consequências próprias.

 

Por outro lado, caído o projeto do PT, a esperança se reinventa e talvez ela seja o único moto perpétuo da humanidade. Mas ela também cobra preços. Só admite a repetição de erros por certo número de vezes. A menos que se trate de um verdadeiro tonto.

 

Não há análise minimamente responsável que consiga manter a ideia petista – seu projeto partidário, de governo, de gestão- incólume de ataques. Mesmo o petista mais roxo tem que admitir que se o Partido dos Trabalhadores não se reinventar – e já se viu que, por hora, isso não ocorrerá – há ali uma teimosia atávica-, toda a ideia se vê comprometida. Mesmo com o novo oxigênio ao sindicalismo que é ou seria a reforma da CLT.

 

Paradoxalmente é a esquerda que se ergue. Descolada de Lula. Talvez ainda acéfala de um nome nacional. Se Ciro-ex-Lula não serve, um Ciro-pós-Lula poderia ser um projeto de ‘salvação’ da esquerda. Ciro começa a dar nítidos sinais de descolamento de Lula.

 

Por outro lado, a favor da ideia da esquerda, atualmente, continua um PSDB, de novo, burrinho, com brigas internas de vaidade eleitoral e disputas-gumex para saber quem concorrerá como coxinha a presidente.

 

Uma coisa parece certa: se a esquerda se clivar, se aparecerem vários candidatos para concorrer com os projetos de direita, a direita levará, já que a náusea, ou as suspeitas, com diversas pautas de o que se chama ‘esquerda’ não é nada pequena na atualidade.

 

Lula condenado em segundo grau, tornado inelegível, não representa o fim da esquerda. O problema é ele se convencer disso; o PT se convencer disso; e todo o restante da esquerda e seus caciques se convencerem disso.

 

Está-se num momento ao qual a esperança não pode tirar férias.

 

Jean Menezes de Aguiar / OBSERVATÓRIO GERAL
[Artigo republicado no BRASIL 247]

 

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