0 Chato é um egoísta

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Pense numa pessoa chata. Sim, elas existem e são uma chata realidade para quem tem que aturá-las. Todo mundo pode ter uma ou outra chatice, isso é normal. O que é terrível é o chato contumaz. Aquele sujeito que já se prevê a chatice. Ele é constante, persistente, infalível, e, claro, perturbador para quem está junto.

Há vários tipos de chatos. O lento e prolixo nas explicações, aquele que faz uma conversa parecer um espasmo de ritmo, ou um deserto de ideias. Há o cerimonioso, que acredita que ser extremamente formalista é sinal de educação ou ‘finesse’ – afinal o que será isso? Há o que se esforça para ser o que não é; ser rico, ser intelectual, ser elegante, ser jovem, ser descolado. Não imagina que o tamanho do seu ridículo é o mesmo tamanho da força que faz para parecer alguém que ele jamais é.

Mas o chato é um egoísta. Ele quer impor ao outro suas manias, suas implicâncias, seus trejeitos, suas irracionalidades, seus deuses e crenças e seu jeito próprio de ser. No fundo tem dificuldade em aceitar as coisas como elas são, ou mesmo como as ganha de presente. Invariavelmente, sempre mesmo, muita coisa não está boa para o chato, não lhe agrada, não lhe satisfaz.

Conviver com uma pessoa assim é bastante cansativo. Tem-se, a toda hora, que justificar alguma coisa para que ela aceite.

Outra caraterística do chato é que ele ‘se’ impõe restrições severas e torna a sua própria vida bem menos feliz ou prazerosa. Não come isso, não come aquilo, não tolera isso, não suporta aquilo etc.

Se o chato é egoísta, também lhe falta humildade para aceitar o mundo e a sociedade como eles minimamente são. Ele é um arrogante, achando que suas manias têm que ser aceitas.

Como o chato não é um primor de inteligência e genialidade – o ser genial costuma ser alguém bem agradável-, suas conclusões, inferências e visões de mundo também não deverão ser nada ‘adoráveis’. É o triunfo da burrice incomodando. Sim, a chatice é um subproduto direto da burrice.

O chato ‘superativo’ terá opinião – ou será sentença?- sobre tudo. Assim, ‘conhece’ sobre teoria política, economia, relações internacionais, direito, marketing, futebol, educação e o que mais vier. Esta criatura é cheia de ‘certezas’, cheia de dogmatismos. Costuma ser um crédulo fervoroso de o que opina, mesmo que no reino do absurdo.

Por fim, o chato também é um mau observador. Não observa que é um chato. Não evolui e persiste em sua chatice.

Qual a saída para o chato? Exatamente esta, começar a se perguntar, por meio de uma auto-observação se ele é um chato, se incomoda, se as pessoas costumam se referir a ele – de ‘brincadeira’ (…), que seja-, como uma pessoa meio bobona, meio lambona, uma que dá uns foras, uma que opina umas ‘bobagens, uma pessoa ‘meio’ chata.

Todo mundo pode ser o que quiser, até chato. Mas o convívio com pessoas adoráveis é infinitamente mais delicioso, mais prazeroso e muito mais leve.

Jean Menezes de Aguiar

 

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