Ciro Gomes x PT – por que a histeria?

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Está rolando certa ‘histeria’ com a possibilidade Ciro Gomes candidato em coligação com o PT. Estão indo longe demais. A bela Gleisi Hoffmann, em soberba de aluguel, quase exortou repulsa étnica contra Ciro. Como se o PT pudesse continuar a ser preconceituoso… Um pouco de humildade nunca fez mal a ninguém; nem ao PT, que nunca soube bem o que é isso.

 

O PT pós-vitórias seduziu-se com o autoritarismo da psicanálise megalômana: essa coisa do ‘nunca antes na história’. Isso contaminou muita gente. Agora não tem mais governo, nem líder; pelo menos solto. Já reparou que o PT-possível está acéfalo? Quem solto é o líder de verdade do PT? Quem solto pode ser o candidato do partido? Isso de recusarem outro que não Lula tem lá sua parcela de esperança que Lula possa voltar, vá lá. Mas também encaixa muito bem em um partido sem um único líder pronto.

 

Talvez na história do partido possam ser identificadas 3 frentes: o Partido dos Trabalhadores; o PT; e o chamado petralhismo/petralhas.

 

Por ‘Partido dos Trabalhadores’ há uma grandiosa ideia histórica com a mudança pós-ditadura, com a resistência por avanços que motivou toda uma esquerda nacional e mesmo até alguns conservadores a votarem, lá atrás, naquelas mudanças.

 

Por ‘PT’, passou a haver uma ideia meio ácida, ligada a uma então juventude contemporânea que teria se identificado não propriamente com um histórico Partido dos Trabalhadores ou efetivamente o trabalhismo, mas com um PT-século-21, ao mesmo passo que a ideia do PT-governo-em-ação.

 

E por petralhismo ou petralhas a ideia nitidamente preconceituosa de conservadores na vontade figadal de xingar e maldizer tudo que possa ser traduzido por PT/Lula e companhia ilimitada. Aqui, são o ódio e a intolerância, ou a burrice, claro, as moedas de troca. Para esses reacionários de uma ideologia plural, o PT nunca fez nada que preste, ou seja 100% dos governos petistas foram uma tragédia, um fracasso, um engodo, uma mentira e um desastre. É óbvio que a posição extremada assim sequer merece crítica.

 

Também, atualmente, o Partido dos Trabalhadores se vê enroladíssimo, no plano criminal, e não ‘somente’ por Lula, mas Zé Dirceu, Palloci-delação e outras figuras poderosas e históricas do partido. Negar isso é querer ser cego.

 

Eleitoralmente não importa se a fatura criminal de Lula é justa ou injusta. Seus adversários vão utilizar isso e, efetivamente, terão voto e mais voto com a situação. Grandes bolsões de eleitores, ainda seduzíveis por canetas de 10 centavos ou pela ideia de um messiânico salvador estatal – tanto faz-, considerarão a situação criminal do PT como um verdadeiro desastre, ou hiato do sonhar, o que pode ser muito pior.

 

O que ‘sobra’? Uma união óbvia das esquerdas. Mas elas – não nos iludamos- tem suas fogueiras particulares de vaidade. Um não senta no colo do outro, nem do lado. Esse ‘lema’ burro já afundou a direita inúmeras vezes que invariavelmente se dividiu e perdeu. Agora é a vez da esquerda cair na esparrela.

 

Ciro Gomes é incomparavelmente o candidato da esquerda pronto e maduro, sem lava-jato no rabo, com um grande partido trabalhista de esquerda (!) a lhe ancorar, um sempre PDT de Leonel Brizola e outros tantos intelectuais. Mas uma cepa do PT tacanha e vaidosa, além de sonhadoramente isolacionista, se lhe fecha os olhos. Pelo menos por enquanto. Imagina-se que aos 49 do segundo tempo resolva aceitar Ciro. Mas aí será bem tarde. E ‘bem feito’.

 

Ciro tem seus defeitos históricos, mas nessa xepa de ano eleitoral que está sendo 2018, valendo pouco, com o pânico da esquerda – e do mundo- chamado Bolsonaro, ao mesmo tempo que um aguado-que-não-engrossa Alkmin insistindo na receita picolé de chuchu, o carcomido PT tem que se criticar, amadurecer e criar opções para ontem. Seu purismo lulático não o salvará.

 

Lula poderá recorrer no TSE e até conseguir ‘registrar’ uma candidatura, mas preso tudo cai por terra. Se o projeto for somente este, formal, nominal, e não efetivo de ele presidir o país, a estratégia nasce famélica. A quem serviria o movimento ‘publicitário’? Se a crença for a de Lula obter liberdade efetiva para exercer o mandato, a hipótese é juridicamente remotíssima. Quem não aprendeu com Mandela, que prisão prende efetivamente, não aprende com mais ninguém. O cárcere tem seus códigos judiciais de cumprimento. Gritos e choros não produzem sentença absolutória.

 

Se o PT já interessou muito à esquerda, porque era ele que a dignificava, agora é a esquerda que tem que interessar ao PT e aquele papo péssimo, horroroso de ‘humildade para o PT’ precisa sair do freezer.

 

 

Até hoje o partido como um todo não fez, que se saiba, nenhuma mea-culpa com a Lava Jato. Por essa ‘lógica’ 100% das condenações e prisões da Lava Jato a seus próceres foram infamantes. ‘Começa’ um cansaço sociológico – uma cultura da aquiescência- pela reiteração de sentenças e prisões condenando gente do PT. Quanto antes o partido se lavar, muito bem lavado, melhor para as eleições de 2018. Já foi a época em que a sujeira podia ser escondida sob o tapete. Com redes sociais, isso ficou praticamente impossível.

 

O PT perder a chance de encabeçar Ciro Gomes como ‘seu’ grande trunfo, com o aval frontal e decisivo de Lula, inclusive, seria uma aposta no tempo que não está existindo mais. Parece que as cabeças sonolentas do partido não se deram conta que mês que vem já é meio do ano. E com Copa do Mundo. Já o avesso, aproveitar a chance de um nome pronto – que o PT não tem-, seria uma vitória tranquila e um retorno do partido e da esquerda ao poder. Só de brincadeira: em caso de não ser Lula, quem será em 2018 com cacife para disputar a presidência?

 

O único ‘senão’ seria uma traição de Ciro a um acordo. Mas aí acredita-se que Lula, mesmo na masmorra, o contivesse. Não porque falte personalidade a Ciro, mas porque o acordo seria efetivamente o garantidor da solução de Ciro à Presidência.

 

Pelos cálculos aí, a situação dos petistas é para lá de delicada. E se eles só ficarem no clamor, no grito, na indignação e nas faixas de rua vão, sim, perder o pouco tempo que lhes resta.

 

Jean Menezes de Aguiar / Observatório Geral

[Artigo republicado no BRASIL 247]

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