2018 e o eleitor ávido

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A urgência na sociedade que a internet ajudou a construir, fez surgir, agora, o eleitor-2018, do tipo ávido. Mas não ávido de conhecimento e informação, o que seria interessante. Ávido de intrigas, pegadinhas, fofocas, contradições e crises da vida dos candidatos. Também respostas azedas ou malucas que o candidato porventura deu numa entrevista há 8 anos e ficaram dolosamente guardadas na imprensa para serem requentadas contra ele, como uma duplicata moral histórica. Dessas que as autoritárias entrevistas – ou serão paredões? – da Globo News, com os candidatos, vêm usando.

 

Para este nosso eleitor ávido, qualquer ‘fora’ que seu candidato der em alguém é ponto e vai para o Instagram, e qualquer tropeço que o candidato ‘inimigo’ tenha numa resposta, é desastre, mas também vai. Tudo muito radicalizado para nutrir a avidez de uma classe média internetiada que não tem nada de gentil. É a sedução pela espuma do conflito.

 

Nessa sociologia do horror da guerra polarizada não de ideias, mas de trincheiras, a facada de Bolsonaro faz sentido. É a tragédia ainda inexplicada totalmente fora da bitola de violência brasileira. A violência brasileira pertence a um boçalismo próprio, do ladrão-de-celular, assaltante-de-padaria, traficante nós-vai, nós-quer, pessoas imbecis sem qualquer qualificação, intelectualmente idiotas que nunca melhoram de vida.

 

A violência da facada num atentado a candidato à presidência da República nobiliza o país. É como se essa horda de criminosos pudesse ser politizada, escolhesse seus alvos pela ideologia, percepção humana inacessível a esses.

 

A facada é o lado podre da avidez, sua parcela de estupidez que nem ‘resolve’ nada, nem altera nada, só causa a gravidade criminosa à vítima. A facada não dialoga, busca o que nem sabe o quê. Sequer interrompe algo, martiriza, efeito completamente antagônico que o idiota assumido jamais planejou. Seu único plano de desestupidez é o mínimo de destreza em empunhar e mirar com uma faca a barriga de alguém.

 

O eleitor ávido assiste a tudo isso como um hiato histórico momentâneo. É como se o próprio tempo levasse uma facada e fosse para o CTI. Mas espere, este mesmo eleitor, não se revolta, não se sente atingido, não percebe que o atentado é contra a democracia, seja ou fosse um candidato do PT, do PSDB ou do PQP. Não há um traço ético que o inflame, como se imaginaria que revoltaria um cidadão espanhol ou um argentino. Sim, a revolta, esse maravilhoso óleo social que o brasileiro simplesmente desconhece.

 

Também, esta avidez fez, por exemplo, com que um candidato deixasse de ser candidato para virar ‘mito’, uma construção infantil, se for verdade, ou malandra, se publicitária. Mas que vem servindo como fator de crença e adoração para um eleitor seduzível. É precisamente sob esse pensamento urgente que saem ou saíram os salvadores, os milagreiros, os prometedores, os caçadores de marajá, os lavajateiros e tantos mamíferos sociais em forma de candidatos que a história ajuda a identificar.

 

2018 está se superando, sob todos os aspectos. Dir-se-ia alvissareiro. Um preso, um hospitalizado e as redes sociais bombando, loucas como nunca, imunes a isso tudo. 2018 talvez seja o início de uma época de eleições ‘trincadas’ pela cocaína social das mídias sociais. E seu produto mais visível será este tal eleitor ávido, de escândalos, intrigas, ódios e vieses.

 

O grande problema é que não é isso que uma democracia serena e madura precisa. Não mesmo.

Jean Menezes de Aguiar

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Categorias:Política

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