Quem conversa a sério (!) com você?

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Em épocas de ‘amigos’ de Facebook; de redes ‘sociais’; de pessoas que vivem ‘curtindo’ suas coisas, há um questionamento relativamente incômodo a se fazer. Quem se permite conversar infinitamente a sério com você?

 

A questão não é nova, mas talvez tenha ganhado importância nesses tempos modernosos.

 

O conversar a sério, aqui, não é apenas a forma de ouvir pacientemente você pelo que você tenha a dizer. Não é, também, o modo de se postar compenetradamente perante você, com ‘respeito’ (…) e lhe ‘dar atenção’. A proposta aqui é ainda mais ousada. Tem a ver com quem ‘quer saber’ das suas profundezas, das suas dores e dramas, seus sonhos e frustrações.

 

Isto mesmo. Você pode ter amigos maravilhosos, presentes, carinhosos e atenciosos. Pode ser uma gente que está aí para praticamente ‘quase tudo’ que você precisa. Mas, insistindo-se num nível bem profundo de questionamento, com quem você conversa como se estivesse no espelho?

 

Pode-se descobrir alguns paradoxos com essa indagação.

 

Primeiro, você pode muito bem acabar percebendo que seu próprio companheiro não é esta pessoa, não tem este nível de amizade infinita com você. Sim, ele dorme e acorda com você mas não busca, não lhe investiga nessas tais profundezas do intelecto, dos valores, da vida.

 

Segundo, poderá haver alguém assim nas suas relações que nem seja um ‘grande’ amigo, mas que, vez em quando, se encontra com você e dispara questões densas e profundas sobre a sua pessoa, que ninguém mais teria ‘coragem’ de fazer. Esta pessoa até pode ser alguém relativamente estranha a você, mas o hábito ‘dela’, de relacionamento com o mundo, é denso e profundo, e ela projeta este hábito para qualquer pessoa que queira se relacionar com ela. Essas pessoas raras acabam sendo memoráveis, afinal, invadem com carinho o superficial bem estar do outro para melhorar, para contribuir e para trazer mais felicidade por meio da reflexão.

 

Em terceiro lugar, ter alguém assim pode ser uma ‘terapia’ valiosíssima. Alguém que buscará ler você nas suas intimidades e segredos, aqueles que você chega até a disfarçar para você mesmo.

 

Não é todo mundo que aprecia, ou aguenta, ser invadido. Se há densidade para se doar, para invadir, também há densidade para receber. Há quem opte por ser fechado e jamais dividir suas dores ou medos com um terceiro. Por questões várias. Achar que intimidade não é para dividir, conversar etc. Talvez esta opção de vida seja uma opção com menor aprendizado, afinal, ouvir uma outra opinião sobre os problemas próprios costuma ser uma valiosa oportunidade para se melhorar, crescer como pessoa.

 

Em épocas de relações frágeis e vida líquida (Bauman), uma pessoa que se interesse infinitamente por você, ainda que só para lhe ajudar episodicamente, naquele momento, pode ser um ser valioso nesse mundo de aparências e mentiras também infinitas.

 

Por outro lado, algum chato de plantão poderá dizer que uma ‘relação’ assim não se ‘constrói’ avulsamente; que isso é um processo longo de maturação e confiança e blá blá blá. Sim, é, mas cadê esse ser confiável e inteligente para conversar assim com você? Se existe, ok. Mas se não existe seria interessante criar oportunidades para que isso aconteça. Outro grupo de chatos de plantão, quererá dizer, malandramente em reserva de mercado, que alguém assim só pode ser um ‘profissional’, já que seria um ‘risco’ conversar intimidades com amigos, ou ‘leigos’.

 

A saúde mental suporta plenamente a inteligência e a genialidade, o carinho e a atenção. Alguém com predicados assim que queira conversar, trocar ideias e lhe ouvir a fundo é, simplesmente, tudo de bom. Será uma grande mentira dizer que conversas possam pôr alguém em ‘risco’, alegando a tal saúde mental.

 

Em épocas de superficialidade, há que se garimpar, cultivar mesmo quem pode ‘dar’ esse tipo de atenção, carinho e, porque não dizer, amor em forma de amizade.

 

Querer saber do outro, infinitamente, tirando o que ele não ‘quer’ dizer, ou não sabe como dizer e lidar, é, antes de qualquer coisa, um ato de amor.

 

Comece ampliando os horizontes, e a profundidade, de certas amizades em particular, certas pessoas que você considera que seriam boas para as tais conversas ilimitadas. Pode buscar estabelecer pactos mesmo, confessar que gostaria de aprofundar o nível da troca, do diálogo. Grandes surpresas poderão ocorrer e o grande conforto e maravilha deste convívio cumplicial, lindo e benéfico a qualquer um poderá ser o resultado de tudo isso.

 

O bom é que uma pessoa assim, com este nível de cumplicidade total, não se precisa ter vários. Basta um por vez. É um backup da consciência, o step da percepção. Basta apenas escolher bem quem será esse amigo x. O resto serão horas de conversas. Regadas a vinho, melhor ainda.

 

E aí, você tem alguém assim?

 

Jean Menezes de Aguiar.

 

 

 

 

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