Candidatos, eleitores e carnavais

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Na semana que antecede à eleição de 2018, acumulam-se fatos, tragédias, incertezas, esperanças e agonias próprias da democracia.
Pessoas absolutamente esclarecidas têm indagado, atônitas, ‘afinal, por que a democracia estaria ameaçada?’, diante da avalanche de informações e contrainformações neste sentido. Suas preocupações mostram um justificado pasmo com o que têm ouvido a partir de atores ultrarradicais, principalmente da direita.

 

À consideração de que a democracia é o menos pior modelo para um convívio social harmônico, em que liberdades e diferenças são asseguradas e o conceito de ‘governantes’ deve sair das entranhas do povo, como representantes eleitos, estes questionadores pouco se satisfazem.

 

Esta eleição talvez venha aceitando a ideia de signos próprios, como se contivesse um marco cultural distinto e a tornasse diferente de outras tantas.

 

Em primeiro lugar, para muitos, o ‘ciclo’ PT se encerrou ou deveria ser encerrado, a ferro e fogo. Esta é uma certeza, para um grande bolsão social que cristalizou efetivamente a rejeição pelo partido e tudo que disser respeito à sigla, não adiantando qualquer argumento de boa referência histórica da era Lula.

 

Questões diversas ainda incham a rejeição ao PT, como os escândalos na Lava Jato; a frustração com Dilma em não ter sabido dar continuidade aos ganhos sociais obtidos com seu antecessor, além da famélica condução política que lhe custou a sobrevivência no cargo; a saída do armário da extrema direita, chegando à patética onda de vociferar intervenção militar.

 

Em segundo lugar, a obsolescência do PSDB em não conseguir se apresentar como alternativa prestável ao término do ciclo PT, se ele se confirmar, consequência que seria natural ante à histórica polarização PT-PSDB. Aqui, reafirma-se o reposicionamento do PSDB como uma nova espécie de MDB: um então partido paquidérmico, mas essencialmente fraco para disputas a presidente da república.

 

Ainda, a desastrosa insistência do partido em Geraldo Alckmin para disputar a presidência. ‘Apenas’ porque governou São Paulo. Mesmo assim, com sua formidável impotência particular na área da segurança pública – leia-se PCC, a cria funesta do PSDB-, e a perceptível personalidade ‘tênue’ de seu candidato. Tudo isso contribuiu para sepultar momentaneamente o PSDB.

 

Por fim a mancomunação eleitoral de última hora com o baixo-clero Centrão que, agora, já percebido o desastre Alckmin emite, como não poderia deixar de ser, sinais de adultério explícito, naturalmente atrás de cargos sobrevivenciais no novo governo, seja ele quem for. Por outro lado, não há de se estranhar muito esse fisiologismo de fora, quando João Doria (PSDB) começa a abandonar o barco do próprio PSDB em [nova] traição explícita na semana que antecede a eleição, ao perceber que seu candidato chave não tem condições.

 

Em terceiro, a sanha ou lógica nitidamente utilizada nesta campanha, de trocar a natural e edificadora autopublicidade do candidato, pela busca negativa de destruição do adversário mais próximo. Esta sempre foi a psicanálise da mediocridade, cuja criatura não se relaciona com o outro pelo jogo sadio de capacidades, mas motivada pela diminuição ou rebaixamento do seu interlocutor. Aí, precisamente, o medíocre considera o que compreende por conceito de ‘vitória’.

 

Chama a atenção, como a busca pela desconstrução do outro seduziu tantos candidatos, principalmente os majoritários. Some-se esta estratégia a um radicalismo bem boçal, tipo fanáticos de futebol, que passou a ser a regra na eleição, e a campanha culminou com facadas, mentiras, tiros e verborragias internetiadas de toda ordem.

 

Em termos personalistas, de capacidade dos candidatos, pouco adiantou Ciro Gomes demonstrar, sem dúvida, um preparo intelectual muito acima de todos os concorrentes. A eleição de 2018 fica marcada não pelo ‘melhor’ candidato, nem mesmo pelo conjunto da obra que seria a ‘melhor candidatura’ ou mesmo melhor projeto.

 

Em vez disso a eleição se marca: 1) pela derrota do inimigo mais próximo; 2) pela radicalização ultraconservadora que mais se coaduna com a desse eleitor majoritário, no caso de direita, um que por décadas teve vergonha de sua raiz autoritária; 3) pela agudização de uma bancada religiosa fundamentalista que se somatiza com o voto ultraconservador, escancarando na safadeza ideológica do ‘em defesa da família’ como blindagem a uma suposta promiscuidade, artificialismo fabricado para atender analfabetos sociais.

 

Assim, esta eleição de 2018 talvez fique mesmo marcada como uma que deixará seus traços culturais limítrofes bem nítidos.

 

Mas o que vencerá se Bolsonaro vencer?

 

Vencem, 1) não ideias compostas e formalmente articuladas, mas pílulas de crendices ideológicas de um salvador de plantão transformado em ‘mito’ ou antídoto de última hora ao PT; 2) um eleitor não essencialmente cansado pelo desastre Dilma, mas efetivamente reoxigenado por Bolsonaro que, todavia, [este eleitor] sequer consegue imaginar, lucidamente, como será a governabilidade de seu próprio país; 3) uma certeza social de que o Brasil tem um viés ultraconservador e autoritário, muito maior de o que concluem intelectuais, quando, à hora de paralisar o PT poderia ter optado por [qualquer] candidatura progressista e arejada, opta efetivamente por um modelo que dialoga com o intervencionismo militar, caraterística errática própria de países com escancarados déficits em compreensão e experiência democrática.

 

Paralelamente a isso tudo, e por causa disso tudo, se parar aí e não advier uma convulsão intestina, o Brasil se mostra efetivamente democrático, aceitando inclusive esta possibilidade ultraconservadora de vitória, o que não representa um paradoxo para o conceito formal de ‘democracia’, apenas uma lástima qualitativa para seu desenvolvimento.

 

Em todo caso, esse é o nosso carnaval eleitoral. Serão não 4 dias, mas 4 anos pela frente, seja eleito quem for. E cada um com seu tempo, seus blocos e suas fantasias. O problema, meio antropofágico que se apresenta, diz respeito ao povo. Quem em primeira, segunda e última análise continua pagando todas as contas. Principalmente quem não teria feito uma opção pelo modelo conservador.

 

Jean Menezes de Aguiar

 

Artigo republicado no BRASIL 247

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