O nazismo de esquerda e outras asneiras

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Para idiotas ideológicos, cujo máximo de conhecimento que conseguem acessar são filminhos ‘fáceis’ de internet, pode-se contestar com qualquer coisa. E não interessa se a contestação estiver correta e fundada em teorias, ciência, estudos ou lógica. A cabeça dogmática se orgulha da teimosia e, simplesmente crê. Simples assim. Se você insistir, a criatura brigará vorazmente com você. Os novos tempos vêm mostrando que não há amizade ou parentesco que resista a este novo ódio do não-saber.

 

Outra moda em alta são gurus motivacionais de intelectualidade de botequim. Nem me refiro, propriamente, aos enganadores do mundo corporativo ensinando uhuu e ahaa coletivos, e outras alegorias estelionatárias em salas refrigeradas de ‘treinamento’ empresarial – ou será domesticação? Mas sim os que posam de pensadores-de-frases-de-efeito e acabam sendo paradigmas intelectuais de quem precisa de algum ‘conhecimento’, não para melhorar, mas para ‘nocautear’ adversários. A última moda em Instagram.

 

Bem, no troca-troca baixo-nível de nocauteantes e nocauteáveis, todos acabam se merecendo, óbvio.

 

Falar que no Brasil não teve golpe de Estado ou ditadura podem ser sintomas de coisas diversas.

 

Pode ser dificuldade cognoscitiva aliada a uma crença dogmática, verdadeiro tártaro mental, que no fundo morre de vergonha social do momento ditatorial brasileiro de 64 com mais de 4 centenas de mortos, e que tenta se equilibrar na absurda contramão da história, dos livros e do conhecimento sedimentado em pensadores e estudiosos seniores e insuspeitos.

 

No Dicionário de Política, de Norberto Bobbio, verbete Golpe de Estado, assinado por Carlos Barbé, são identificados os 4 fatores para a existência de um golpe: a) é efetuado por órgãos do Estado; b) tem como consequência a mudança na liderança política; c) pode, extraordinariamente, ser acompanhado de mobilização política e/ou social; d) tem por caraterística a eliminação ou dissolução dos partidos políticos.

 

Negar que tenha sido precisamente isto que ocorreu no Brasil em 1964, tudo por meio do elemento ‘força’ é, ou comprometimento cognitivo, ou má-fé intelectual. No caso, por exemplo, de figuras obscurantistas como o ministro da Educação e o chanceler do Itamaraty, parece ser dificuldade cognitiva mesmo. Eles tentam ‘fundamentar’ a coisa.

 

Minha edição do Dicionário de Bobbio é a 2ª, de 1986, quando os politólogos mundiais já possuíam para estudo, por exemplo, o nefasto quadro social da América Latina na virada dos 1960/70, marcada indelevelmente por tantos golpes de Estado, todos, sem exceção geradores de ditaduras militares. Também todos uniformemente de direita. Ou seja, já havia um conhecimento historicamente próximo, tanto para se estudar golpes de Estado, quanto para se estabelecer diferenças com ‘revolução’, bases sociais totalmente distintas.

 

Agora, surge essa outra sandice de momento. O nacional-socialismo, mais popularmente conhecido por seu diminutivo, o nazismo, ser de esquerda.

 

Que mente historicamente famélica pariu esta asneira de que o nazismo seria de esquerda? Se fosse, dane-se, seria mero registro histórico e teorético e pronto. Mas nunca foi. Tudo bem que ninguém queira se ver rente a Adolf Hitler e sua histérica boçalidade ariana. Contou-me um velho amigo alemão que se chamava Adolf, que na Alemanha, por exemplo, nunca mais batizou uma criança com esse nome, dado ao estigma histórico.

 

Para sintetizar, no mesmo Dicionário de política, citado, no verbete Nacional-socialismo, mostra Karl Dietrich Bracher que o conceito de nacional-socialismo possui inúmeros significados. Mas, por isso mesmo, nenhum deles aceita o socialismo internacionalista e marxista como fundamento ou base teórica.

 

Roberto Mangabeira Unger, na extraordinária obra O movimento de estudos críticos do direito, a mais inovadora corrente de ideias a respeito do direito na perspectiva da esquerda, conforme descrição do próprio livro, ensina, à p. 207, que o marxismo e o estruturalismo foram as maiores tradições teóricas que serviram à esquerda até o presente tempo. Assim, a ideia de leis da história, por suas variantes de sequência compulsória ou mundos possíveis, sugere o que se entende por ‘esquerda’ como a aceitação da sociedade possível, uma forma buscadamente harmoniosa de não intervenção preconceituosa e aceitação das diferenças, justamente o oposto de o que o nazismo quis e implementou.

 

O fundo ideológico do nacional-socialismo era a formação do sonhado Estado nacional, somando-se que a própria democracia de 1918 foi considerada responsável pelas consequências da derrota na 1ª Guerra Mundial, uma ‘vergonha’ insuperável para uma muito vaidosa sociedade alemã.

 

Pegando carona numa biologia para idiotas, alemães da época construíram um darwinismo social nacionalista, racista e obtuso para justificar perseguições e assassinatos, tudo coordenado por um controle totalitário. Ou seja, era o fator do ‘nacionalismo’, este sim, que se prestava como fator principal no nazismo, nunca o fator do ‘socialismo’, como classicamente estudado na esquerda.

 

Também, é o próprio Norberto Bobbio, na obra Direita e esquerda, que ensina: ‘Ocorre que a direita não está mais em condições de se envergonhar. Após a Libertação [do fascismo], dizer-se de direita era um ato de coragem ou mesmo de desfaçatez.’

 

Soam risíveis a construção de que o nazismo ou fascismo pudessem ser um movimento de esquerda bem como a ‘compreensão’ de que o Brasil não teve uma ditadura militar oriunda de um golpe de Estado. Por que esta sanha, agora, insana e burra com a História? A quem, a não ser pelos guruzetes desses ideólogos, isso irá convencer?

 

Quem porventura ‘simpatize’ com o nazismo, golpes ou ditaduras militares precisa apenas estudar mais, no caso, a díade direita-esquerda. O mesmo Bobbio mostra, por exemplo, que os direitos sociais foram ‘conquista histórica da esquerda’. De novo, como ligar isso ao nazismo? Absurdo.

 

Interessante no recente episódio, tornada obrigatória às Forças Armadas brasileiras a comemoração de 64, elas mesmas, por suas cabeças pensantes, foram corretamente as mais reservadas contra essa alegoria histórica. Assistidores de filminhos de internet e ávidos pelo colo de Olavo de Carvalho devem perceber, rapidamente, a idiotice teorética que são tais construções e se descolar delas.

 

A quantidade de asneira histórica está passando dos limites.

 

Jean Menezes de Aguiar

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Categorias:Cultura

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