A ética empresarial deixou de ser opção

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Inegavelmente a Lava Jato representa um marco social na vida das empresas, principalmente as grandes corporações.

 

Talvez fosse exagerado supor que já se tivesse criado uma ‘cultura’ com míseros 5 anos de inquéritos, processos e condenações. Mesmo com condenações até então inimagináveis, como a de Lula, e outras figuras então arrombadas de primeiro escalão.

 

Ainda que não se esteja autorizado a usar o conceito sociológico de ‘cultura’ como traço estabilizado de uma gente, todo o país assiste, há anos, a grandes empresários e ‘autoridades’ públicas mancomunadas, apanhando na Justiça. Pode não ter dado tempo, ou consistência histórica, de se criar uma nova cultura, mas as surras milionárias que grandes empresas e seus chefões até então intocáveis acabaram levando, publicamente, prestam, como modelo impagável e efetivo, a mudanças de pensamento.

 

Se a ética na grande empresa brasileira era uma mera opção que qualificava a organização, provocando vaidosa publicidade na TV em se anunciar ‘empresa ética’ – de gosto duvidoso-, passados os anos de Lava Jato, todo mundo começou a acordar para o novo modelo brasileiro de governança.

 

No plano internacional, há casos famosos indexados na literatura especializada. Marcia Cristina Gonçalves de Souza, na obra ‘Conduta ética e sustentabilidade empresarial’, esmiúça famosos paradigmas.

 

O primeiro é o da British Petroleum, empresa de energia global com mais de 70 mil empregados, em 72 países. Com a explosão da plataforma petrolífera ‘Deepwater Horizon”, a empresa se viu obrigada a destinar a cifra de U$ 32 bilhões para cobrir custos da catástrofe. O que chama a atenção? A cifra, claro. Se isto não é uma punição financeira do destino, nada mais o será. Falam as más línguas – costumam ser as melhores – que o alarme da plataforma era desligado para os petroleiros dormirem. Não, não é surreal, é apenas humano. Há também quem diga que o sistema de segurança estava com defeito e para consertar ter-se-ia que parar a operação, gerando prejuízo de U$ 500 mil por dia.

 

Ou seja, há versões para ambos os gostos: valorativa e axiológica, em que o conceito de ética funcional e decisória obedeceu à imbecilidade humana; e a versão ligada ao capitalista roxo para não perder a bagatela de U$ 500 mil/dia. O certo, claro, é que algum energúmeno arrostou a decisão de tratorar o bom senso e a inteligência.

 

Outro caso foi a crise americana de 2008, magistralmente narrada pelo prêmio Nobel Joseph Stiglitz, na obra O mundo em queda livre, em que dezenas de milhões de pessoas pelo mundo perderam seus empregos. Só na China foram 20 milhões e dezenas de milhões caíram na pobreza. A causa? O próprio Stiglitz responde: ‘Há uma resposta imediata: problemas da governança corporativa (p. 18). A crise não foi algo que simplesmente aconteceu nos mercados financeiros. Foi criada pela ação humana (p. 19).”

 

Ocorreu que executivos, perceptivelmente salafrários, de bancos e seguradoras manipularam resultados de suas empresas para fabricar lucros e aumentar bonificações. Mas Stiglitz oferece uma ‘longa lista de culpados’ (p. 42) começando pelas companhias hipotecárias que criaram hipotecas exóticas para milhões de pessoas, entrando aí os bancos e as agências de classificação de risco. Esta análise não é bem vista por ciosos conservadores privados que, invariavelmente, lutam para que as violações éticas sempre fiquem a cargo dos governos. Mas não é bem assim.

 

Por outro lado, os casos brazuca-lava-jato, domésticos, dos condomínios ‘chiques’ do bairro vizinho não desafiaram apenas uma suposta ética, daquelas que só se aprende depois que se apanha na cara. Tudo por aqui contava com um beneplácito cultural (aí sim) de toda uma sociedade habituada à impunidade, no sentido de que lia as barbaridades relatadas pela imprensa nos jornais há décadas, e nunca davam em nada. Entretanto, esta mesma sociedade que achava ‘um absurdo’, na fila do supermercado, um empresário ou agente público roubar, rapidamente aceitava com bons olhos se no meio da maracutaia o próprio filho viesse a ser empregado com um ganho suspeito.

 

Não é por outra razão que o Global Business Ethics Survey – GBES, publicado em 2016, classifica o Brasil em primeiro lugar dentre os países cujos empregados mais percebem a pressão para comprometer padrões, com concessões às normas e aumento de riscos. Também, o mesmo GBES, relativamente a condutas inadequadas classifica o brasil em triste segundo lugar, só tendo a Rússia à frente, como pior de todos.

 

O problema ético – os dilemas em si-, a percepção pessoal e a respectiva decisão individual de alguém se manter ético, no sentido de ser fiel às próprias bases culturais lucidamente identificadas, e à própria visão de mundo, aliadas a uma autocartilha de o que tenha construído por ‘certo’ no curso da vida, qualifica o profissional como de padrão superior. Isto é fato.

 

E será de uma originária decisão individual como esta, que se terá construído todo e qualquer grandioso e complexo menu ético para a, que seja, maior organização internacional do mundo. Ou de um país. Não existe outra origem para a ética a não ser a de constructo humano. Códigos éticos não nascem por si sós.

 

 

Mas ainda falta muito para o Brasil; não há se ‘festejar’. O setor público promíscuo é praticamente infinito. A esbórnia moral está meticulosamente em todos os escalões oficiais, os mais ‘austeros’. Retroalimenta-se e, esta sim, é culturalmente interminável em matéria de patifaria. Pelo menos historicamente até aqui.

 

E é isso mesmo. O historiador Eric Hobsbawm, na obra ‘Era dos extremos’, p. 355, no capítulo O terceiro mundo, citando Michael Holman, do Financial Times, apresenta interessante tabela de suborno para América Latina. Por U$ 100 mil se compra um alto funcionário de Estado. Por U$ 1 milhão estamos falando de um secretário permanente. Pela bagatela de U$ 20 milhões, entram na vibe da alegria o ministro e sua equipe. E por U$ 200 milhões, o próprio chefe de Estado. Simples assim. Talvez a tabela precise ser ligeiramente ‘corrigida’. Fora isto, o problema é que com a Internet, tudo mudou, a informação se democratizou e todo mundo passou a saber de tudo.

 

Quanto à empresa, parece que não resta outra saída, senão a ética. Ainda, se o Estado é historicamente leniente com ‘os seus’, não se mostrou assim nos últimos anos de Lava Jato com empresários.

 

Filosoficamente, a ética nunca deixará de ser eterna ‘opção’. Mas principalmente agora, que a empresa o faça seriamente. Pode ser pela poesia dos novos tempos. Pelo arroubo do sonho da verdade. Pelo medo da Lava Jata. Pela cisma do patrão chato e rabugento. A causa pouco importará. O mesmo Hobsbawm já ensinava em sua obra que atualmente as empresas não duram mais que 30 anos. Empresarialmente um tempo curto, mas o bruxo sabia o que estava falando. A saída é mesmo a ética.

 

[Artigo em homenagem aos alunos da disciplina Ética, Poder e Política.]



Categorias:Mundo corporativo

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