Discutindo política com o crente

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Falam por aí que futebol, religião e política não se discutem. Nada mais enganoso. Estas discussões são totalmente possíveis. Basta a pessoa ter um mínimo de equilíbrio. E educação, claro. Com o desequilibrado, o radical e o violento não se deve discutir nada. Esta gente sempre quer ‘nocautear’ o adversário com uma frase de efeito, superficial, um truco argumentativo. Ainda que sem qualquer fundamentação.

 

Por outro lado, existe um engano na discussão propriamente política. Ela atrai um falso intelectualismo para si, como se qualquer discussão desta área fosse própria de seres inteligentes e intelectuais. Mas o que calibrará a discussão política como possivelmente intelectualizada é exatamente o método mental dos interlocutores. Se utilizando de ponderação e reflexão, fica claro um cuidado com a construção de conclusões e apresentação de argumentos. Aí estarão as pessoas adoráveis e merecedoras de atenção.

 

Assim, uma primeira grande diferença que pode ser feita, ou buscada, é identificar se os interlocutores são pessoas usualmente ponderadas e fundamentadas, ou se são tempestuosas e agressivas nas defesas de suas ‘crenças’. Para estas, não existirão lados teóricos; ideologias construídas; pensamentos conclusionais alcançados. Existem crenças ideológicas; teorias conspiratórias, quando não deísticas ou salvacionistas. Para usar uma terminologia da baixo-moda, ‘mito’.

 

As crenças, invariavelmente, são o resultado de irreflexão a fundo. Por isto, Gaston Bachelard, em sua tese de doutorado, em 1928, Ensaio Sobre o Conhecimento Aproximado, p. 102, já sintetizava magistralmente: ‘Não se acredita porque é simples, é simples porque se acredita.’

 

Quem ‘crê’ recebe um dado pronto. Daí, tudo se torna ‘simples’, sendo que eventual processo de descrença invariavelmente não se dá pelo convencimento de um interlocutor ou argumento, por mais fundamentado que seja, mas pela descoberta de outra crença, então melhor. Mas, crença. Vê-se que o vocacionado às crenças não será uma pessoa com profundidade de argumentação. Toma-se a crença por seu lado raso, como atalho para uma solução, não por uma exauriência inferencial.

 

Por outro lado, as pessoas ponderadas costumam aceitar observações contrárias como dados a se levar em conta, ou visões otimizadas que porventura não alcançaram por si próprias. A gente ponderada, e educada, parece ser cada vez mais rara nesta sociedade do todos-sabem-tudo, ou do ‘te peguei’ argumentacional.

 

Zygmunt Bauman, entrevistado no El País e citado por Sergio de Abranches, na obra A Era do Imprevisto, p. 89, ensina que ‘o diálogo real não é falar com gente que pensa igual a você. As redes sociais não ensinam a dialogar porque é muito fácil evitar a controvérsia.’

 

A evitação da controvérsia não se dá porque a pessoa seja ‘pacífica’, mas sim porque opta por ouvir apenas o que lhe dá prazer, o defeito metodológico primacial de uma mente unidirecionada. Assim, um bolsonarista, um antipetista, ou um petista, roxos – dão exatamente no mesmo-, poderão ter uma rede com centenas de ‘informantes’ que lhes darão notícia exclusiva ‘de dentro’, só o que se quer ouvir, sendo que esta informação é totalmente imprestável para a formação ou manuseio de um diálogo a que se refere Bauman. Estas pessoas não estarão se preparando para o jogo democrático, mas apenas para a via autoritária de ouvir viciadamente o que prequerem.

 

Por segundo há diferenças, mais que óbvias, entre os diversos atores da interlocução política. Não é possível que se queira, por exemplo, em nome de uma [malandra] não-discriminação, que um experiente e profissional filósofo político esteja em igualdade de condições culturais e inferenciais a uma boa pessoa participante de uma querida festa de batizado de criança num domingo qualquer que, de uma hora para outra, resolveu discutir política.

 

Formações, conhecimento, estudos e comprometimentos intelectuais intensos continuam a servir para ‘alguma coisa’. Não é possível que tudo tenha sido ‘anulado’ em nome do espetacular e tesudo Google que trans-formou todos, indistintamente, em médicos, advogados, engenheiros, cientistas políticos e o que mais se supuser.

 

Todo-mundo-e-qualquer-um poder opinar sobre tudo e qualquer coisa, no ‘boteco’, é das coisas mais legítimas e democráticas que há. Quando não agradáveis, regadas a cerveja gelada e linguiça frita. Só não se pode querer, naturalmente, que esses achismos e achologias de botequim consigam traduzir ou demonstrar teoréticas, epistemes e itinerários inferenciais lógicos e densos.

 

Política continua sendo uma área adorável, popular e legítima a qualquer um, sendo que a queixa que se faz, desde Bertold Brecht, é a ‘pouca’ política nas gentes, que só as aliena ou verdadeiramente as analfabetiza, para usar o termo de Brecht.

 

Só há que se predefinir com quem se está falando. E isto não é nada difícil. Se é um adorador de plantão de um partido ou de um político qualquer, basta que esta condição sentimental esteja posta na conversa, às claras e sem rodeios. Mesmo que o adorador jure, ou minta – dá no mesmo-, que sua adoração não interferirá nas suas ‘análises’. Esta falsa observação com intuito de credibilizar sua fala, como tantas outras do adorador, são percebidas logo no início de qualquer conversa sobre política.

 

Política também pode ser ‘aprendida’ ou ‘ensinada’, matizes bem diferentes de uma mera conversa de churrasco. Há princípios na Política que consubstanciam verdadeiros núcleos duros, os quais não podem, jamais, ser afetados em qualquer conversa, sob pena de se violar conceitos caros da sociedade mundial, como respeito à constituição, democracia, direitos humanos, liberdade de imprensa e liberdade dos povos em geral. A menos que a cerveja do botequim já tenha começado a fazer efeito. Aí, tudo vira aquela festa ‘popular’.

 

Jean Menezes de Aguiar

 

 

 



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