A cafona república vorcariana

(Na foto, esses deuses da TV, na antiga novela O Cafona, Francisco Cuoco e Marília Pera, que sempre esbanjaram personalidade e beleza).

Algumas digressões ociosas sobre quase futilidades humanas.

Pensadores já criticaram a riqueza, o supérfluo, o espumoso, o fútil, o ocioso e o que mais se supuser, relativamente a alguma característica do ser humano.

Particularmente, gosto do pensamento burrista. Adiro à análise causal ligada à burrice, como faz o grande filósofo Marco Casanova, em seu tratado A Persistência da Burrice. Acho que por ela, muito pode ser explicado, compreendido e até desenvolvido culturalmente.

A burrice acaba sendo perdoativa, já que seu usuário crê, piamente, em várias coisas, mas principalmente que seu projeto dará certo. Que ele enganará o planeta, e ninguém descobrirá. Claro que ao lado desta primeira burrice arrogancial, de se ver como um gênio, há outra, a de ver o interlocutor sempre como tolo. Realmente a burrice é prenhal, ela se multiplica.

Moralistas temem a burrice, preferem analisar tudo pelo lado fácil: o autoritário desrespeito. Uma análise primarista. O desrespeito é percepcional, a burrice é endógena. Querer xingar alguém de ‘desrespeitoso’ é um drops de ineficácia. Já reconhecer como burro, só de longe, pois corre-se o risco de apanhar, essas criaturas costumam ser agressivas.

Numa sociedade provinciana como a brasileira, sempre haverá os que endeusarão, ideologicamente, os ricos, seus modos e Miami. Quererão ser, imitar, parecer etc. E isso chega, inclusive, a funcionários públicos, que deveriam, por óbvio, pensar em servir ao povo, não buscar riquezas. Aqui, cabe aquela lenga-lenga-obviedade, politicamente correta para atender a patrulhadores de plantão, de que não são todos assim.

Mas, algumas-muitas ‘autoridades’ – seja lá essa volúpia nominal antropológica o que for-, parecem gostar de riquezas. Aí, no caso, a pobreza idiossincrática da boca livre: uísques caros, charutos, jatinhos, surubas, prostitutas ou garotos de programas, mansões carnavalescas etc. Tem para todo gosto. Paralela e precisamente aqui começa certa cafonice-piegas-provinciana.

Alguém poderá dizer que coisas boas são boas. E são mesmo. Mas quando envolvem o famoso rabo preso, continuam sendo boa, mas agregam certo ingrediente de burrice. Aí, veja quantos recentemente perderam cargos, não se reelegeram, acabaram presos, foram filmados surubando, expondo esposas e filhos etc. Um verdadeiro horror, uma horda de estupidez.

Não há, na história universal da humanidade, rabo preso inteligente, genial ou sábio. Se como [alguma] vovó já dizia, mentira tem perna curta –uma natural variação da burrice-, o rabo preso é a mentira potencializada, pois que já nasce com valor negativo prefixado.  Mera questão de tempo para o toc toc toc da polícia ou do oficial de justiça.

Dá para desconfiar, perfeitamente, da inteligência de uma autoridade com rabo preso. Tudo bem que encantamentos e sonhos com riquezas sejam poderosos, e gerem conversinhas alvissareiras no calar da noite e no quentinho do colchão com o cônjuge homem ou o cônjuge mulher: amor, vamos ganhar muito, vai ser a nossa virada! Diz o crente que acha que nunca será pegado em flagrante, ou em aberturas digitais celulônicas. Pobre cabeça esperançosa.

Com o mundo digital, qualquer um será possivelmente pegado, basta uma polícia minimamente honesta em fazer o que tem que.

Não se trata de ser profeta do passado, mas alguns rabos presos são meio óbvios. Se uma criatura, por exemplo, se torna inimiga pública número um da metade da população de qualquer país, este mamífero não tem que se tornar um santo – já que Nietzsche ensinava que nada mais raro entre santos e moralistas do que a retidão-, mas tentar se tornar, por óbvio, a pessoa mais honesta daquele país. Se já era, não vai ser agora que quererá enveredar pela safadeza & patifaria. Aqui a burrice gritará alto sua presença.

Se uma criatura, noutro exemplo, tem qualquer cargo importante, esses com salários vergonhosamente indecentes em relação à população brasileira, com meses (no plural!) de férias por ano, e sonha com a tal da riqueza, se enveredar por ela a título de favores, conchavos, artimanhas etc., adivinha: terá o tal do rabo preso. E, por óbvio, isso poderá aparecer.

É claro que muitas ladroagens, estelionatos, furtos e congêneres brasileiros, oficialíssimos e respeitosíssimos – haja superlativo-, de ‘autoridades’, não aparecem, ou custam a ser pegados e sabidos. Vez em quando se descobre um fiscal estadual aí proprietário de … mais de 100 imóveis. Como ele chegou, conseguiu, alcançou  esse número? Como se consegue isso com salário? (a pergunta cumpre a função de espezinhar o óbvio).

Aqui entra em cena uma coisa que é o pavor dos safados públicos: evolução patrimonial. Esta é a chave da coisa. E não se investiga isso no Brasil, nunca, jamais – não pergunte por quê. Como um político ou a tal ‘autoridade’, por exemplo há 30 anos na vida pública começou com um patrimônio de 100 mil reais e 30 anos depois aposenta com um de 1 bilhão de reais. Tudo bem, assustou com 1 bilhão? Podemos fechar em algumas dezenas de milhões. É a mesmíssima coisa.

Alguns dinheiros são cafonas e patéticos, não interessam se em quantidade muita ou pouca, não apenas porque burros, mas porque entronizam uma ideologia dum capitalismo demencial; antiteticamente guerreiro; obtentor a qualquer custo e preço; tratorante, mas, sobretudo, preconceituoso.

Dizer o clichê que a sociedade brasileira não merecia isso, é um pieguismo misericordioso tolo, como o pensamento misericordista costuma ser. Mas a coisa é mais profunda. Enquanto isso, escândalos não cessam, e muitos pobres e necessitados continuam suas vidas dificílimas, com dívidas familiares e sendo olhado por essas autoridades com pena, quando pedem estatalmente algo.

Evoluímos à situação em que não se pode mais restringir a safadeza somente ao velho político, como era. A república triunfou na riqueza. Flagraram ‘autoridades’ por aí discutindo que a autoridade vizinha tem Porsche, e a outra ainda não têm.

Se cabe um juízo de valor, ele exige apenas que se dê nome aos bois, não necessariamente um nome humano, por questões óbvias, mas o adjetivo já serve. Patifaria e safadeza, um casal lésbico que não se separa, está de bom tamanho.

E, por falar nisso, cadê a evolução patrimonial das ‘autoridades’. Hem Receita Federal; hem polícia? E você, hem povo brasileiro, só reza?

Jean Menezes de Aguiar



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