O curry , o “fuck fuck” e os preconceitos

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Delicioso texto de Wilson Canhas, discutindo um jantar especial para lá de sofisticado e a amiga que recebeu um inusitado convite do motorista de táxi na Índia não necessariamente ligado ao amor em si. Confira. OG.

O curry , o “fuck fuck” e os preconceitos

No sábado passado experimentei a melhor comida indiana que já havia provado, em um jantar inesquecível, artesanalmente preparado por duas grandes amigas, uma chefe de cozinha e sua irmã cozinheira-aprendiz-prodígio (ambas estão fazendo um curso sobre gastronomia indiana). Ontem, segunda feira, encontrei uma outra amiga, recém chegada de um retiro de 3 meses na Índia.

Uma sincronicidade, como diria Jung, que me levou a cruzar as duas experiências e querer refletir sobre elas.

Eu nem gosto muito de comida indiana, pra dizer a verdade. Fui algumas vezes a um restaurante indiano bastante frequentado em São Paulo, que caprichava no curry e embrulhava meu estomago, além de outras experiências não muito boas com as especiarias típicas indianas e meu sistema digestivo, se me permitem a intimidade. Isto fez com que eu, por um bom tempo tenha evitado a gastronomia indiana. Eu generalizei, foi isto.

Mas no ultimo sábado, fomos presenteados com uma refeição, digamos, abençoada. Acompanhei todo o preparo da comida, desde o corte da salsinha, até a finalização do chutney de manga. Eu não sou necessariamente um conhecedor da alta gastronomia, mas vou tentar relatar a experiência o mais fidedignamente que puder. Tivemos como entrada uma panqueca vegetariana com legumes, recheada com pasta de amendoim e coco ralado, artisticamente temperada. Para o jantar, chutney de manga, grão de bico refogado, salada de escarola, arroz basmati (uma variação indiana deliciosa do nosso bom e velho arroz branco) e antes da refeição uma das cozinheiras fez uma oração bem diferente, agradecendo além da natureza, também a todo mundo que indiretamente ou diretamente teve a ver com a produção daquela refeição, os agricultores, os transportadores, os comerciantes. Achei bonita e interessante a prece. A oração fez com que no mínimo todos largassem os smarts e prestassem mais atenção naquele momento, com que se relacionassem de maneira diferente com a comida.

Não sei se você ficou com água na boca, mas posso lhe dizer que as combinações de ingredientes, especiarias e o carinho com que tudo foi preparado, transformaram a refeição em uma obra de arte. Foi uma experiência maravilhosa. Eu fiz as pazes com a gastronomia indiana, graças às duas.

Ontem, coincidentemente, em um encontro, também com uma grande amiga, recebi uma outra dose de informações e sentimentos sobre a Índia. Ela acabara de voltar de um retiro de três meses (programado por ela durante anos), onde meditou, praticou yoga, e tentou inserir-se em uma cultura, da qual eu confesso que não conhecia muito até ouvir o seu famigerado relato.

Em Rishikesh, cidade “super energética”, repleta de praticantes de meditação, yoga e pesquisadores do ayurveda (conhecimento milenar hindu), ela fez exatamente tudo isto e um pouco mais. Neste período, praticou intensamente yoga e meditação, aprendeu algumas receitas indianas, cozinhou no chão, teve duas infecções (que a transformaram em quase um zumbi do “walking dead”, segundo suas próprias palavras), banhou-se no Ganges, o rio curador. Conheceu e chocou-se com a cultura. Neste período de três meses, ela fez um pouco disto praticamente todos os dias, exceto um, em que teve que sair para uma viagem curta sozinha, isto é, sem um homem a acompanhando, situação inédita, porque sempre estava acompanhada por amigos ou colegas homens, sugestão dos próprios indianos para manter-se preservada. No entanto estava tranquila.

Viajaria de taxi, que chamara diretamente do hotel, já tinha pago. Tudo certo. Foram trocando as mínimas palavras em inglês durante o trajeto, minha amiga já havia sido alertada sobre os casos de estupro relacionados a turistas, justamente na época em que ela estava lá e para inserir-se na cultura e se proteger ao mesmo tempo, não deu trela para o taxista e nunca continuava com o papo.

Em um determinado momento do caminho, claro que justamente em uma estrada deserta, o taxista parou o carro, olhou para trás, conferiu se não vinha ninguém de lá nem de cá e já soltou de cara um “You’re very beautiful”, Can I take a picture?”. Segundo minha amiga, na Índia é costume tirar fotos das turistas brancas, registrando a diferença cultural e étnica entra a mulher estrangeira e a indiana. A minha amiga, já alerta para este tipo de abordagem, disse que “não”, que não se sentia a vontade para tirar a foto e que eles precisavam continuar o trajeto para que ela não se atrasasse. O taxista de turbante, não querendo perder a oportunidade de conquistar a gringa, soltou sem hesitar: “ Do you wanna fuck fuck?”. Minha amiga, atriz, disse que nesta hora pensou em trilhões de possibilidades do que poderia lhe acontecer, mas segurou tudo… e com uma expressão de tranquilidade, fez-se de desentendida. “Sorry, I don’t understand”, tentando desvencilhar-se da situação. “Fuck Fuck”, dizia o taxista, gesticulando com a mão direita semi fechada, no vai e volta que simboliza o nosso bom e velho “afogar o ganso”.

“Fuck fuck, you dont know what is fuck fuck?” (gesticulando o tempo todo). “I dont understand”, continuava ela. Graças a Deus, Shiva e ao bom senso do taxista, ele desistiu da empreitada, continuou o trajeto e tudo transformou-se em uma boa historia engraçada. O fato de ter ficado doente, o episodio tragicômico do taxi, e outras situações que lhe ocorreram advindas das questões culturais latentes, tanto as da minha amiga brasileira, quanto as dos indianos, não mancharam o retiro em si, e no balanço geral minha amiga voltou da Índia com uma visão muito positiva da experiência, porem recomenda: “Não é turismo, deve partir de um chamado. Voltei muito bem e muito agradecida por todas as lições e energias daquele lugar, que é, de uma forma difícil de explicar, sagrado. Mas eu não sei se voltaria!”.

Historias gostosas e engraçadas à parte, no final das contas eu fiz as pazes com a comida indiana, mas minha amiga, disse que dificilmente volta pra Índia. Eu mudei de ideia, e ela também. Mas quantos não voltaram amando a Índia? Certamente muitas pessoas adoram o toque de curry deste restaurante que me faz passar mal. Fazer retiros na Índia nem sempre são revigorantes, assim como o tempero de um único restaurante não poderia me afastar tanto de pratos tão deliciosos. Eu detestava curry antes deste jantar e ela tinha uma ideia diferente da Índia antes de morar lá por 3 meses. Simultaneamente invertemos os polos. Mas a questão principal, é que isto também é “só por hoje”.

Ir experimentando, sem cristalizar tanto nossas expectativas em relação as coisas e generalizar nossas opiniões sobre as pessoas, sobre os lugares nos tornam um pouco menos comprometidos com nossas verdades absolutas. Dica boa parafraseada do Buda, “não se apegue” tanto as ideias que temos sobre as coisas. Especialmente sobre nós mesmos. Tudo movimenta-se o tempo todo. Se lidarmos melhor com isso, nada pode nos surpreender tanto. Já já, o curry me pega de jeito de novo e ela decide tentar um novo retiro. E daí mudamos de opinião novamente… e assim por diante. E isto é mais divertido do que parece se não estivermos tão apegados aos preconceitos.

Wil CanhasWilson Canhas, OG.

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