A fórmula do amor

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Cientistas começam a desvendar as reações químicas que alimentam a paixão

[NatGeo – Brasil]. Meu marido e eu nos casamos às 8 da manhã. Era inverno e fazia um frio de rachar. Tínhamos entrado havia pouco na casa dos 30 e nos julgávamos descolados e céticos, do tipo que faz pouco da instituição do matrimônio, mas não deixa de querer o status que ela traz. No brunch depois da cerimônia, trouxemos uma grande caixa de sugestões e pedimos aos convidados que escrevessem conselhos sobre como evitar o divórcio. Achamos que seria engraçado, uma medida perspicaz, mas as sugestões foram bobas: fechar o tubo de pasta de dente. Depois que os convidados se foram, a casa ficou quieta. Havia flores por toda parte: rosas vermelhas, samambaias. “O que podemos fazer que seja bem romântico?”, perguntei à minha cara-metade. Benjamim sugeriu um banho de banheira. Eu não estava a fim de banho. Sugeriu um almoço com vinho branco gelado e salmão. Eu estava farta de salmão.

O que fazer? As bodas já tinham ido, o silêncio era sufocante, e eu estava com aquela conhecida sensação de decepção que a gente sente depois que passa um acontecimento muito esperado. Estávamos casados. Êêêê, viva! Decidi dar uma caminhada. Fui até o centro da cidade, grudei o nariz na vitrine de uma padaria. Fiquei olhando o homem de mãos enfarinhadas, a massa lisinha como pele que ele amassou, amassou, puxou, puxou e moldou em forma de estrelas. Xeretei uma loja de antiguidades. Por fim, dei de cara com o salão de tatuagens da cidade. Não sou do tipo que usa tatuagens, mas, não sei por quê, naquele domingo gelado e tranquilo resolvi entrar. “Pois não?”, disse uma mulher. “Você tem aí alguma tatuagem que não seja permanente?”, perguntei. “Tatuagens de hena”, respondeu ela.

Explicou que duravam seis semanas, eram usadas nos casamentos indianos, ficavam bem nítidas, lindas e marrons. Mostrou-me fotos de indianas de joias no nariz e os braços ornados com rendilhados e arabescos de hena. Eram mesmo belíssimas, nada tinham daqueles desenhos espalhafatosos e caricaturescos das tatuagens que vemos por aí. Aquelas de hena falavam de enleios, da trama que se tece entre duas pessoas, de laços que unem e do quanto é difícil descobrir onde começam e onde terminam. E eu, que acabara de me casar, que sentia um desalento pós-núpcias e que desejava alguma coisa bem romântica para incrementar minha noite, decidi fazer uma.

“Onde?”, quis saber ela. “Aqui”, falei, apontando os seios e o ventre. Ela ergueu as sobrancelhas. “Tudo bem”, disse.

Sou uma pessoa recatada. Mas tirei a blusa, deitei na mesa, ouvi a mulher misturando pós e tintas na sala dos fundos. Ela veio com uma tigelinha que continha um mingau vermelho vivo, cintilante. E me adornou. Deu-me videiras e flores. Transformou meu corpo em estaca para sustentar novas ramagens e, por fim, mais embaixo, contornou meus quadris com um cinto de castidade de elos encadeados. Uma hora depois, seca a tinta, vesti-me e fui para casa, ao encontro da minha cara-metade. Aquele, eu sabia, era meu presente para ele, o tipo de presente que a gente só dá uma vez na vida. Deixei que ele me despisse.

“Uau!”, falou ele, recuando um pouco.

Corei, e começamos.

Não estamos mais começando, meu marido e eu. Isso não me surpreende. Mesmo naquela época, usando os ornatos do desejo, as tatuagens sinuosas, eu sabia que elas desbotariam, que aquela cor fulva iria esmaecer até sumir. No dia do meu casamento, eu não me importava.

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1 resposta

  1. “O verdadeiro matrimónio é uma mistura particular de amor, amizade, consideração e sensualidade.”
    ―André Maurois

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