Redes sociais, tecnologias pessoais, solidão e amor

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O amor é um adorável tirânico, um sacana ditador, requer submissão a ele. A delícia é que retribui com prazer, puro prazer.

 

Cada vez mais se vive o paradoxo que pode ser descrito assim: de um lado toda uma tecnologia social que permite megacomunicação instantânea entre pessoas de qualquer lugar do mundo, gerando conversas possivelmente secretas e confiáveis, por exemplo, o WhatsApp. Do outro, a solidão.

Numa leitura deste paradoxo, vê-se completamente assimétrica a relação entre a facilidade da comunicação e a quantidade de solidão. Ou seja, por toda essa facilidade atual, era para a solidão estar muito menor. Quer dizer, exatamente por essa facilidade, é possível se considerar o ‘grau’ de solidão social altíssimo.

É claro que todas essas ‘medidas’ não passam de percepções vulgares, e mesmo assim no universo do percepcionador. Mas a impressão é esta, nitidamente esta.

A ser assim, algumas conclusões podem ser tiradas.

Uma primeira é a de que as redes sociais serviram muito mais para dar vazão a um exibicionismo pessoal do que a relações estáveis. Sejam de amizade ou de amor. A boa e velha amizade, aquela que existe segundo padrões do ‘eu posso contar de verdade com fulano como um amigo fiel’ se manteve alheia a toda essa tecnologia. Não é a rede social que ‘cria’ amizade, mas a amizade migra para qualquer lugar, inclusive para a rede. A amizade é uma característica de certas pessoas, vocacionadas ou educadas para serem amigas, e não apenas ‘dizerem’ que são. Já o amor é um plano igualmente complexo que continua sendo exceção.

Uma segunda conclusão é o tipo de conversa que parece circular nas redes sociais. É inegável que como comunicador rápido, entregador de recados pontuais e transmissor de notícias ou acontecimentos, os sistemas de rede social sejam espetacularmente eficientes. Mesmo que a conversa dure horas no WhatsApp ou no Facebook, parece que sempre há uma certa espuma ou superficialidade crítica que não permite que aquele ‘modelo’ sirva para densificar uma relação, seja de amizade, seja de amor. A não ser quando já ‘há’ algum amor ou encantamento entre as pessoas, de forma real ou potencial.

Em terceiro lugar, programas como o Facebok que mesclam informação pessoal estático-dinâmica e conversação, se tornaram essencialmente exibicionistas e relatadores pessoais de agenda. Onde se está, com quem se está, o que se vai comer, o que se está fazendo, o que se quer fazer, o que se fez etc. Isto para não se falar no quesito ‘ostentação disfarçada’, um campeão de audiência. Com essa ideia de ‘informar’ sobre si, como se a própria pessoa fosse o ponto central do universo e o mundo estivesse ávido por saber o que ela come, não há interesse verdadeiro no outro, mas apenas no próprio umbigo. Esta egolatria impede a relação. Em uma palavra, impede o amor.

Sobre o amor há inúmeras lições. Mas uma característica pode ser muito reveladora da possibilidade de amar. É o interesse no outro, em vez de um ‘maior’ interesse em si. Não entram aqui bobagens e clichês como ‘se anular’; ‘não se dar valor’; e ter ‘o outro como muleta’. Nada disso. O amor é uma circularidade sistêmica a dois, perfeita e acabada. O moto contínuo humano que o próprio homem não conseguiu inventar na mecânica, mas vive em toda e qualquer relação desde que seja regada pelo encantamento do amor, da ternura, no namoro, do cuidado e do interesse.

Repare que quando se começa a falar do amor cessam os interesses por redes sociais e programas de relacionamento. Nascem imediatamente uma aura de doçura teórica sobre um objeto adorado e ao mesmo tempo um interesse avassalador de saber como é este sentimento na prática que todo mundo conhece e já percebeu sua força e potência.

Se comunicar-se por redes sociais é simples, o amor, este que cura solidões, também é simples. Mas é preciso um estado pessoal comprometido com o amor. Pessoas que se veem ‘superior’ ao amor, que criticam o amor conforme o filósofo Roland Barthes mostrou, que na época contemporânea sexo passou a ser sinal de saúde e amor sinal de doença, dificilmente conseguem acessar o amor.

O sociólogo italiano Francesco Alberoni conceituou o amor como ‘um movimento coletivo a dois’. Se não houver essa intenção de ambos os lados o casal não se forma e o amor não nasce.

Na sociedade que renunciou a densidade, a ética e a transparência nas relações, elegendo senhas e conversas secretas como ícones de inclusão o amor perdeu espaço. Vieram relações díspares, levinhas e negociadas. Não se formaram viscerais movimentos que compusessem olhares comprometidos, sonhadores, entregues e definitivamente não competidores com o amor. O amor é um adorável tirânico, um sacana ditador, requer submissão a ele. A delícia é que retribui com prazer, puro prazer.

O grande erro de uma parcela significativa desta sociedade é a arrogância de olhar o amor por cima, cuidando para que ele não a vitime, quando a vitimização do amor é das maiores delícias de se viver.

O primeiro encantamento para se amar não está em si ou no outro, mas na abertura sensível ao amor. Quem aceita se apaixonar, aceita amar perdidamente, está muito mais sujeito ao amor do que aquela pessoa que acha ‘intelectual’ não se sujeitar à ‘fraqueza’ do amor. Estas, certamente, vivem a angústia do não amor. Já as outras amam. Se não hoje, sabem que é certo o amor acontecer, afinal elas amam o amor, querem o amor e têm o amor como um grande salto no escuro que já deram e adoram dar de novo e de novo. Mesmo sabendo que em muitos casos há preços a serem pagos.

Contra a solidão não há remédio melhor do que um domingo pela rua qualquer de mãos dadas. Ou mesmo saber que alguém pensa em você. E deixe o mundo dizer que isso é bobagem. Viver essa ‘bobagem’ é o que qualifica a vida como espetacular e maravilhosa.

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1 resposta

  1. Excelente texto!
    “O grande erro de uma parcela significativa desta sociedade é a arrogância de olhar o amor por cima, cuidando para que ele não a vitime, quando a vitimização do amor é das maiores delícias de se viver.”

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