Cunhas, Malafaias e Faustões – o novo Brasil

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É isso mesmo, novo. Seria paradoxal se não fosse patético. O conceito de ‘novo’ é sempre um desejo social. Mesmo que seja velho, arcaico, conservador, careta e safado. Se a sociedade o quer como novo, ou pior, o mantém como atual, então é assim.

Os três nomes usados no título são apenas referências icônicas de três grandes áreas importantes. Política, fé e televisão, ou imprensa. Elas passaram a viver simbioses para lá de promíscuas. Financeiras. Tocaram-se indecorosamente e gostaram do resultado lucrativo. Passou a ser a cara de um novo Brasil.

Política:

Na política, Eduardo Cunha consegue tirar de um cargo ‘menor’, presidente da Câmara, um estrelato histriônico. Parecia que ia durar. Já deu. O jeitão malandro-carioca com respostas prontas para tudo chegava a dar um tom leve e ágil à aparência do político, este ser invariavelmente mentiroso desde a maternidade. Mas os milhões de dólares que não conseguiu esconder com sua malandra empresa ‘Jesus.com’ – ele ainda não achou uma mentira plausível-, detonaram seu sonho maior. Chegou ao seu máximo. E ao seu fim. Agora é o ex-Eduardo Cunha. Se não fosse isso seria um perigo para o PT, Dilma, Lula etc. Afinal parece ser o único elemento inteligente da oposição .

‘Fé’:

No segmento da fé, religião e igrejas, no Brasil, área perigosíssima de se abordar, dada a um fundamentalismo religioso patrulhador que sequer permite o debate público de certos temas, imitam-se padrões de uma fé ianque. Próspera, endinheirada e falante, totalmente contrária a uma fé indu, por exemplo, silenciosa, reflexiva e humilde. Mas a fé de palcos é também conservadora, persecutória e autoritária. A melhor representação deste fenômeno purpurinoso é o sempre sob-holofotes Silas Malafaia. Bispo Macedo após a obra-templo de sua vida ‘sossegou’. Na cênica vestual virou tipo-judeu, de quipá, provavelmente o sonho de ser um neo-papa dos evangélicos. Macedo e sua competência empresarial a la Silvio Santos merecem. De toda forma este ‘novo’ Brasil, de tempos em tempos, continua reconstruindo figuras midiáticas. Ou caudilhescas e meteóricas. Na nova sociedade do espetáculo, tudo precisa ser facebooquiado. Até o luto e a fé.

TV:

Na TV continua a mesmice burrificada, não por falta de opção, mas por opção alienante, o que é bem diferente. O entretenimento dominical pós-Chacrinha parou em Fausto Silva. Se Chacrinha era maluco, direto, escrachado, mundano, transgressivo, confuso, amado e representativo de um besteirol original, Faustão tenta ser refinado, cômico, moralista e bilionário. Coisas completamente diferentes. Se à época da ditadura a Globo era alvissareiramente maléfica, além de poderosa, tornou-se uma empresa qualquer tentando não falir, demitindo as melhores cabeças  do jornalismo e mantendo um funcionalismo obediente. Como todos se imitam nessa área, todos queriam ‘ser’ Globo, tudo se pasteurizou.

A mistura:

Essas criaturas são mais que legítimas. Como são Bolsonaro, Lobão, Chimbinha e Sarney. Qualquer um é. O problema é quando se misturam os canais. A fé entra na política e reza teatralmente em sessões oficiais da Câmara, num estupro fundamentalista administrativo grotesco. O jornalismo e a imprensa resolvem jogar no lixo o fingimento que sempre mantiveram acerca de alguma isenção funcional. Tornam-se braços armados com poderosos teclados teclando para um lado ou para o outro. E a política e os homens de Estado continuam a assaltar cofres públicos na sanha patrimonialista pessoal e familiar. Ou pelo lado legal, com salários principescos mais benefícios, direitos, incorporações, regalias, vantagens e outras promiscuidades com o dinheiro público, ou pelo viés bandídico mesmo, das comissões, ameaças, acordos e ostentação de poder. Tudo com a nova diferença da jactância da ética arrombada. Ou seja, desinventaram a vergonha na cara.

Maconha, aborto, família, mulher e pobres:

Só há um detalhe. Se tudo é legítimo, tudo ‘pode’. A sociedade é soberana e isso é a sua cultura, dirão os antropólogos com acerto. Mas então, com estes exemplos estapafúrdios, ou não, acima, arrombem-se os moralismos autoritários das proibições conservadoras e revejam-se os conceitos de uso da maconha, o aborto, a família, a mulher, o amparo aos pobres. Mas aproveite-se e se releia o Estado brasileiro regiamente remunerado e entupido de regalias, por uma imensidão de gente que, desgraçadamente, confirma a pior fala dos ditadores militares: ‘o povo não sabe votar’. Basta se ver ‘essa’ classe política.

Os intelectuais:

Darcy Ribeiro morreu apaixonado pelo Brasil; e reclamando dele (O povo brasileiro, último capítulo). Questiona: ‘Que é o Brasil entre os povos contemporâneos? Que são os brasileiros?’ Acaba respondendo que ‘somos um povo em ser, impedido de sê-lo’. Explica porque fomos ‘afundados na ninguendade’. Quanto deste diagnóstico mudou nessas poucas décadas? Se acharmos que Brasil é somente Avenidas Paulistas e faculdades azuis espelhadas, mudou muito. Mas todos sabem que não é. Os bolsões de miseráveis pelo país continuam a incomodar uma esquerda autêntica que, todavia, não consegue nem mais teorizar uma saída.

Sergio Buarque de Holanda (Raízes, capítulo Novos tempos), afirma que ‘A democracia no Brasil foi sempre um lamentável mal-entendido. Uma aristocracia rural e semifeudal importou-a e tratou de acomodá-la onde fosse possível, aos seus direitos ou privilégios…”. Ora, existem no Brasil os 4 fatores centrais do conceito de ‘democracia’ teorizados pelo prêmio Nobel Amartya Sen (A ideia de justiça): voto secreto, liberdade de expressão, acesso à informação e liberdade de discordância. Mas é o próprio Sen tão comprometido com os conceitos de ‘justiça’ e ‘desigualdade’ que ensina que esta democracia certamente ‘não bastaria’. Num país como o Brasil será um conceito formal, de mera existência. Ou pior, interesseiro, como demonstra Holanda. E não há outra saída fora dela, que fique bem claro. Aí reside o desafio.

Milton Santos e María Laura Silveira (O Brasil) após se referirem a 3 grandes modelos: a economia considerada a fala privilegiada da nação por Celso Furtado; o povo por Darcy Ribeiro; e a cultura por Florestan Fernandes, querem que o território seja a fala privilegiada da nação. O problema de todas essas leituras e releituras é um fator odioso que passou a permear tudo no Brasil: a crise ética. Um fator colateral, poderosamente presente, principalmente na educação infantil familiar da elite, uma nova tragédia; certamente a pior. É a educação que responde pela coluna vertebral de valores de um povo. E não há indicador de a elite largar o osso.

Cunha, Malafaia e Faustão, são meras engrenagens visíveis de uso de uma ‘máquina’ ao mesmo tempo capitalista-aética, mentirosa-aproveitadora, mas efetivamente aceita por um Brasil imenso. Prestam, esses ‘nomes’, apenas a título de exemplo, ainda que representem fidedignamente suas ‘categorias’. Há outras tantas e outros representantes.

O grande problema será se todos forem ‘semelhantes’. Talvez não se ‘meça’ um povo por uma entrevista pessoal, um a um, mas por esses representantes de categorias sociais. Elis Regina cantou: ‘O Brasil não merece o Brasil”. Este Brasil aí não merece mesmo. OBSERVATÓRIO GERAL

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Categorias:Cultura

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