Classe média urbana brasileira – cada vez mais intolerante, e burra

Nova-Classe-Media-Brasileira

Cena 1. O filho de 10 anos de idade, num clube fechado de condomínio de classe ‘média’ em São Paulo, encontra um par de tênis esquecido na piscina e corre para a mãe dizendo: – achei um tênis!. A mãe, descerimoniosamente dispara: ‘–  se achou é porque o tênis está perdido; agora é seu; azar de quem perdeu e não cuidou’.

 

Cena 2. Dois amiguinhos de 8, 9 anos chegam a um viveiro de vidro, num ‘bacana’ petshop paulistano e um deles ao ver um filhote de coelho fala para o outro, em voz sôfrega e afetada, apertando as mãos contra o próprio peito: ‘- olha, vem ver, não dá vontade de quebrar o vidro, roubar e ficar com ele pra você? É tão fofinho!’ Ao que uma, para eles, velha rabugenta prontamente remata em sussurro: ‘– tão novinho e já vândalo, ladrão e viado’.

 

Cena 3. Bernardo Carvalho, colunista da Folha, estacionando o carro em Higienópolis, espera uma mulher se desenrolar numa vaga em seu veículo. Nervosa, vira-se para o jornalista e grita  do nada: judeu filho da puta. No banco de traz sua filha assiste ao xingamento.

 

Todas as cenas são reais e verdadeiras, e ocorreram exatamente assim. E antes que alguém queira pegar o acessório pelo principal, tão em moda em épocas de pieguice mental, que seria se ater à fala da rabugenta da cena 2, registre-se que ela, para desesperos dos plantonistas de internet, não estaria muito errada; pode ter sido cáustica, cínica ou intelectualmente devassa, mas errada não.

 

Talvez o grande problema cultural aí nem esteja sendo como essas crianças estão sendo [pessimamente] educadas. Ou o porquê seus pais creem nesses [des]valores da apropriação indébita, o ‘se dar bem’, ou o preconceito explícito. Importa mais a verificação de que seus pais já chegaram à vida adulta – gastaram um bom tempo de vida- e ‘não melhoraram’, não se aperfeiçoaram pessoal e socialmente. Não incorporaram conceitos nobres de humildade, honestidade, ética, o antigo ‘ter modos em público’, e a boa e velha vergonha na cara.

 

Nos três casos, as mães presentes. Na cena 1 mais que estimuladora da apropriação, efetivamente cúmplice educacional dela, apropriação, como fator de educação. Na 2, com olhar blasé para a ‘traquinagem’ do filho, ‘fingindo’ que aquilo seria apenas uma coisa isolada. Na 3, babando ódio gratuito.

 

O ódio, a intolerância, o preconceito, o ‘se dar bem’ em detrimento alheio, já não causam tanta novidade assim entre estudiosos. Essa máscara do brasileiro bom, cordato, amigável, honesto e educado precisa ser rasgada. A produção de artigos críticos de observadores atentos se multiplica e é absolutamente correta. Que fique bem claro que este brasileiro médio e urbano passou a ter orgulho de uma boçalidade conceitual. E isso é novo. Perdeu a vergonha com o preconceito.

 

Uma das causas talvez disruptiva disso tudo, precisamente na evolução social que deveria ser normal – evolui-se para melhorar- foi a combinação psicoloide educacional no plano formal das últimas décadas, quando o aluno virou cliente e os pais consumidores. Essa consumismo que jamais deveria tocar lascivamente como tocou a educação – aqui valores, éticas e costumes- vem formando uma castinha de mentalmente mimados cuja moeda mais fácil, ou atalho para a rejeição é o ódio.

 

O horror involutivo e exatamente por esta funcionalidade, tacanho, dos conceitos preconceituosos para uma sociedade que deveria normalmente evoluir vem criando essa nova elite. Aquela tão bem demonstrada por Marilena Chauí no episódio do Yuotube ‘Classe média paulistana’. Assista, mesmo que você seja um dos odiadores de plantão dela.

 

Se este brasileiro era preconceituoso como produto de uma boçalidade – o que já era tenebroso-, renova sua condição pela consciência conceitual do ódio. Em épocas de internet, não se há mais passar a mão na cabeça do preconceituoso dizendo-o ‘ignorante’.

 

Numa investigação de causas, Darcy Ribeiro, O povo brasileiro, p. 452, comparando porque os povos originários da América do Norte, ‘tão pobres e atrasados, rezando em suas igrejas de tábua… ascenderam plenamente à civilização industrial, enquanto nós mergulhávamos no atraso’, ensina que o descompasso foi oriundo do ‘modo de ordenação da sociedade, estruturada contra os interesses da população, desde sempre sangrada para servir a desígnios alheios e opostos aos seus.

 

Isso se perdura até o momento presente. Começa-se a ‘descobrir’, para quem não sabia, que agora há não mais apenas uma elite econômica ‘pura’, mas uma econômica com poder formal no Estado, tanto desorganizando a sociedade a seu prol, vincando uma cultura discriminatória do ‘nós x eles’, como atraindo meganegociatas num novo modelo de Estado patrimonial tão bem ensinado por Raimundo Faoro.

 

As pessoas não gostam de ler, simplesmente ler algum título de artigo em que se digam palavras como ‘burro’, ‘imbecil’, ‘canalha’ etc., como se esses fatores não existissem. Como se a nossa própria sociedade educando tão pessimamente as crianças não contribuíssem para uma juventude burra ou sem ética.

 

Este é o Brasil que está aí na sua porta. Em comparação, no interior dos Estados Unidos, as casas têm seus quintais e jardins cheios de maquinário, bombas, ferramentas, carrinhos, tudo sem cadeados, trancas, correntes e alarmes. Simplesmente não se furta, não se rouba. Mas é o brasileiro que é esperto não é? Então tá.

 

Jean Menezes de Aguiar

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