O jornalismo justiceiro precisa acabar

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Certos paradoxos são interessantes. O jornalismo é uma área por muitos considerada nobre, com intelectuais renomados. Mas não conseguiu ficar imune à sanha social do justiçamento, do autoritarismo e do ódio urbano que virou moda para muitos.

 

Nem se leve em consideração os populares – ou patéticos- programas de TV das tardes de dias úteis, pedindo ‘pau nele’, ‘cadeia pro vagabundo’ e outras mazelas do sensacionalismo de resultado lucrativo.

 

Na onda da narrativa de combate à corrupção, esfera mais ‘bacana’ de crime, é comum ver opiniões ‘luxuosas’, em cults programas de tv a cabo, sendo manejadas com a predominância da prisão, do encarceramento, da punição de suspeitos e réus como moeda de troca. Âncoras bufam pelo nariz, em cênica barata, quando algo não lhes ‘agrada’ ideologicamente.

 

Nesta esteira de punitivismo, não interessam o processo judicial, as presunções de inocência, a liberdade como bem maior. Os tribunais populares do ‘achismo’ condenam previamente dependendo da cara, da origem política, do traço ideológico, da aparência etc. Aí, para ‘analistas’ tudo é ‘óbvio’, tudo ‘está na cara’, como se o mecanismo do processo judicial, uma vitória da sociedade moderna não fosse mais necessário.

 

O horror social do ‘cadeísmo’, em que só a cadeia, os punidores e os prendedores prestam e valem passou a confortar muitas cabeças de incautas pessoas de bem. Mas chegar ao ‘alto’ jornalismo foi um passo mais além. Não porque este jornalismo não fosse feito de humanos e não pudesse errar. Mas porque talvez devesse ter [muito!] mais cuidado com esse pano de fundo atávico da estupidez humana.

 

O desequilíbrio em matérias jornalísticas entre acusação e  defesa, em muitos casos, é simplesmente abissal, na imprensa brasileira dos jornalões e da TV, esta, a ‘chique’. Até parece que a presunção mundial, comum a todas as democracias, organismos internacionais e países avançados não é a da inocência, mas a da culpa.

 

Basta alguém ser apontado por uma investigação qualquer que grande parte da imprensa parte para acusar. Disfarçadamente, educadamente, fingidamente. Mas acusar. Quando não para induzir culpa, já. Utiliza-se o termo da moda, ‘suposto’, para se referir a suposto crime, suposto culpado, suposta propina, como se só esta ‘defesa’ vernacular, do veículo de comunicação para não ser processado, outorgasse um passaporte infinito para manter torcida toda uma redação de matéria jornalística que terá por viés uma acusação ou culpa.

 

Também, em inúmeros casos, fingindo isenção, abre assimétricos espaços entre agentes do Estado – juiz, delegado, promotor, polícias-, e, do lado oposto (ou será ‘inimigo’?) a defesa do réu, esta, invariavelmente desprezível, quando não ridicularizada suavemente.

 

Tudo bem que juízes e promotores não sejam anunciantes em potencial, como uma empresa advocatícia, e o jornal ou a TV do mesmo jeito que não mencionam o nome de empresas numa reportagem, ou borram as imagens para não fazer publicidade de graça, não ‘gostem muito’ de divulgar o nome dos advogados, a não ser o do descolado Kakay, o queridinho da mídia. Sem problema, esta lógica do não-jabá à advocacia. Vá lá, tudo isso. Mas por trás, ou pela frente em primeiríssima consideração está uma das maiores vitórias sociais que são os institutos da defesa do réu e o instituto da defesa da liberdade. O avesso disso seria a idiotice ou estupidez social da presunção da não-liberdade, coisa que nenhum país evoluído aceita ou sequer cogita.

 

Nesta esteira de tragédia, ainda vêm os ‘famigerados’ Direitos Humanos – essa coisa autenticamente pervertida para tantos filhos e netos de uma ditadura que ceifou inteligência e cultura no país-, mas que não deveria (…) chegar ao jornalismo. E, em tantas oportunidades fica claro ter chegado.

 

Há profissões, atividades ou ideologias que, por algum defeito conceptivo cultural odeiam os Direitos Humanos. Vá lá. Mas o jornalismo precisa cuidar para não continuar na esparrela, nem porque em toda e qualquer ditadura ele é logo uma das primeiras atividades a sofrer na carne a estupidez humana da agressão às ideias. O jornalismo é formador de opinião, esse o seu grande poder.

 

Os tempos estão sombrios, mas um sombrio diferente, panfletário, histriônico, um sombrio orgulhoso, com beijinho no ombro. Todo mundo sabe tudo e se sente apto a condenar. A moda é pôr a foto 3×4 do inimigo ideológico no Instagram com uma tarja berrante que ofenda o quanto possa ofender. A gentileza, a sutileza, a delicadeza, mas também os bons modos, o respeito pelo Outro saíram de cena.

 

Quanto ao jornalismo, precisa se repensar. Mesmo que ‘venda’ menos.

 

Jean Menezes de Aguiar

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Categorias:Cultura

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