O ‘te peguei’ como inteligência social

te peguei

Pra um olhar bonito e puro assim o ‘te peguei’ vale

A internet, o zap são simplesmente maravilhosos e seus aplicativos, todos que sejam, são também um espetáculo. O problema é o povo que os habita, usa e se derrete.

 

É claro que tem muita gente e muita coisa legal por ali. Mas também muito lixo. Ô, se tem…

 

Há uma ‘lógica’ meio primária, muito utilizada em tempos de internet comprimida por poucas palavras ou imagens, mas também usada no debate de políticos, entrevistas etc. que precisa ser minimamente discutida. É a lógica do ‘te peguei’. Um espasmo de questionamento que pede ao interlocutor outro espasmo, o de resposta, sob a pena severa e condenatória do ‘ah rá, te peguei’.

 

Jornalistas perguntam coisas a um entrevistado com a intenção de vê-lo escorregar e, aí, pronto, ‘ponto’ para o entrevistador e ‘derrota’ para o entrevistado. A manchete já pode ser feita.

 

Repare-se que não se buscam fundamentos refletidos, não se buscam ideias desenvolvidas, mas apenas o tropeço, o escorregão, o pasmo ou mesmo o silêncio. É mais ou menos aquela lógica do Pânico na TV fazendo ‘entrevistas’ (…) de famosos na entrada de festas, com tudo editável e editado a favor do programa, claro.

 

Conversas familiares de almoços dominicais muitas vezes também chegam a isso. Alguém saca da cartucheira ideológica e dispara – viu que o seu candidato falou isso assim, e agora, o que você tem a dizer? Anda! Diga! E aí?

 

Este patético ‘te peguei’ vale para muita gente como sinal de vitória sobre o outro ou como sinal de inteligência social, afinal, todas as conversas desses aí giram em torno de perguntinhas rápidas que devem ser respondidas na hora, sem muita reflexão.

 

Mas ora, a reflexão, o pensamento crítico, o hipotético, o sistêmico, em que diversas variáveis iluminam as ideias e as enriquecem, tudo com certa ‘calma’ – palavra em franco desuso em tempos de agility mental- são traços do humano. Ou, pelo menos, do humano inteligente.

 

Querer que uma conversa seja guiada por sucessivos ‘te peguei’, achando que isso é um tipo de inteligência pela pressa (!) – totalmente diferente de rapidez de raciocínio-, é buscar no outro a estupidez, o impensado, o irrefletido.

 

Imagens de Ciro, Lula, Bolsonaro e quantos mais povoam a internet com uma frase do tipo ‘te peguei’ querem ‘convencer’ o leitor adversário por alguma coisa que caiba em uma imagem e meia frase. Fotógrafos dirão que uma imagem pode valer mais que muitas palavras, e é verdade, mas aí será um espetacular furo fotográfico, coisa rara, não uma montagem-meme já bastante cansativa de comediantes-de-Instagram.

 

Ninguém convence alguém a deixar de votar no Bolsonaro, no Ciro, no Lula ou no Newton Cruz etc. por um meme fotográfico, ou por um ‘te peguei’ numa conversa de almoço de domingo. Os fundamentos de porquê alguém vota em um ou outro candidato podem até ser preconceituosos, mas até aí há raízes profundas e nítidas para quem quer e pensa assim.

 

Também essas ‘vitórias’ que o ‘te peguei’ geram são grãos de areia num universo de ideias que jamais podem ser importantizados. Achar que alguém ganha ou perde porque se cala, responde episodicamente errado ou tropeça, pode ser um defeito de quem ‘busca’, isso sim, esse tipo de vitória, muito mais de o que aquele que tropeçou.

 

Setores amplos de um jornalismo-às-pressas vem se comportando deste modo, buscando a verdade pelo tropeço do interlocutor, perguntando como se estivesse inquirindo policialescamente. Esse ‘método’, percebe-se, não é dos melhores.

 

E quando você se vir instado num almoço de domingo, por um parente ou amigo, a responder por que o ‘seu’ candidato falou isso ou aquilo, com ares de que se você responder errado, ele terá uma vitória para dizer ‘tá vendo?’ ou, pior, o trágico ‘chupa!’ – ô coisa de 5ª !-, você pode adiantar a vitória e diplomá-lo por antecipação. Diria você – ‘é, você ganhou, você é mais sábio que eu, é melhor que eu, e seu candidato é melhor que o meu, e, fim.’ Ele não gostará nada, mas talvez você consiga ser sábio aí. Palavra velha, sentido velho, a tal da ‘sabedoria’. Mas para muitos, que interessam, ainda vale bastante coisa.

 

 

Jean Menezes de Aguiar

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