A solidão do poder

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Roberta Simão. Com base em universidades inglesas, a solidão do poder empresarial é um fenômeno que precisa ser evitado por gestores, CEOs e detentores de mando. A identificação da uma arquitetura da solidão empresarial é decisiva para que ela não se torne a regra ou um incômodo no mundo corporativo. OBSERVATÓRIO GERAL.

A solidão do poder

Soube recentemente de uma cena interessante em um ambiente de trabalho, em que o mal uso do poder causou, além de frustração, insubordinação de um colaborador prestativo e generoso. Isto me fez parar para analisar mais profundamente as relações de poder, não só dentro do ambiente empresarial, mas também pessoal.

Desde que o mundo é mundo, o poder é cobiçado e buscado em todas as suas instâncias. Do reino animal para todas as sociedades humanas, o poder é a moeda do sucesso. Isto é fato.

No mundo corporativo frequentemente aqueles que estão no poder são menos propensos a retribuir, porque tendem, mediocremente, a acreditar que os “favores”, ou gentilezas que recebem são egoisticamente motivados.

No entanto, a própria natureza do poder e seus efeitos psicológicos muitas vezes deixam os poderosos com uma enorme sensação de solidão quando chegam ao topo de grandes cargos. Lamentável.

Por meio de análises mais profundas e honestas é possível identificar várias situações em que o poder perverte, distorce e prejudica seriamente uma série de processos psicológicos. Processos que normalmente alimentam ligações profissionais saudáveis e formam a base de comportamentos produtivos. Ter esses processos afetados não é um bom caminho para empresas que valorizam seus colaboradores como capital humano. Vamos então às situações mais relevantes:

1. O poder altera nossas crenças sobre a generosidade dos outros.

Quando uma pessoa faz uma gentileza ou um favor para o outro, cria-se automaticamente um questionamento pelo motivo de tal comportamento: Quais são as motivações dessa pessoa por ter feito isso por mim? Muitas vezes, esse processo é tão rápido e automático que nem se percebe que se está fazendo isso. Porém, apesar da sutileza, isso tem implicações dramáticas na forma como as relações se desenvolvem. Normalmente, tendemos a ver o outro sob uma ótica beneficente. No entanto, o próprio poder representa uma explicação alternativa e convincente para o que parece ser a generosidade de outra pessoa.

Quando os indivíduos têm poder, sabem que são mais propensos a serem alvo de oportunistas, interesseiros, que usam palavras e ações amáveis ​​e atos aparentemente altruístas, não por razões altruístas, mas para promoverem seus próprios objetivos. É esta explicação alternativa que sempre existe para os poderosos e os leva a tornar-se mais frios frente aos atos aparentemente generosos dos outros. É claro que esta visão preconceituosa das intenções do outro pode ser funcional, afinal, quem quer desenvolver um relacionamento com um bajulador egoísta? Mas quem está no poder, muitas vezes aplica este princípio em excesso e se torna muito mais desconfiado de qualquer ato generoso que lhe é oferecido, independentemente da fonte.

Em um estudo recentemente realizado pela London Business School, sobre o tema, um dos exercícios foi pedir às pessoas que recordassem o favor mais recente que tinham recebido e quem tinha feito isso por eles. A maioria das pessoas escreveu sobre favores de amigos e colegas de trabalho. Coisas como uma carona para o aeroporto, um ajuda para terminar uma planilha complicada fora do horário de expediente etc. Um ponto importante é que não havia descrição sobre existência ou hierarquia de poder. Dividiram os participantes em dois grupos. Um na posição de poder e o outro na posição neutra. Em seguida pediram para que as pessoas se lembrassem dos favores descritos no exercício anterior e informar o porquê de amigos e colegas de trabalho agirem prestando uma generosidade. Descobriu-se então que os sentimentos de poder alteram drasticamente as reações frente a um favor.

2. O poder afeta nossas respostas aos atos de bondade dos outros.

Quando na posição de poder, nossas crenças sobre as motivações por trás das ações dos outros, em última análise, nos conduzem a uma desconexão entre os gestos e as nossas respostas a eles. Uma das respostas mais básicas e fundamentais para a generosidade dos outros, é retribuir com gestos generosos de nós próprios. Reciprocidade, famosa norma social de que as pessoas devem fazer aos outros o que outros têm feito para eles, tem sido identificada como um componente essencial dos relacionamentos. Desde os Romanos, pelo filósofo Cícero, até a atualidade, por  sociólogos como Alvin Gouldner, sobre a justificativa de que isso cria um equilíbrio social e coesão.

No entanto, só retribuímos favores que achamos que foram feitos para nosso benefício e não por outros motivos a favor de quem pratica o ato. Por exemplo, se um colega de trabalho fica até mais tarde para ajudá-lo em um projeto em conjunto que era importante para o seu próprio sucesso, você vai se sentir menos obrigado a retribuir do que se esse colega ficou tarde para ajudar em um projeto do qual ele não fazia a parte, e, portanto, não iria se beneficiar pessoalmente com o sucesso do tal projeto.

E se utilizarmos o mesmo exemplo acima, podemos começar a ver então, como quem está no poder arquiteta a sua própria solidão.

Imagine que um colega fica até tarde no trabalho para ajudá-lo em um projeto em que ele não está envolvido. Ele viu que você poderia precisar de alguma ajuda e se ofereceu para ficar algumas horas extras.  O estudo da London Business School, sugere que mesmo se a motivação dessa pessoa em fazer o favor é completamente benevolente, impulsionada por verdadeira generosidade, a posição hierárquica desta pessoa na organização em relação a você, vai afetar a sua resposta à generosidade. Se essa pessoa tiver um cargo abaixo do seu na empresa, talvez você se veja menos propenso a retribuir do que se esta pessoa fosse do mesmo patamar hierárquico. Isto significa que, se uma situação semelhante surgir algum tempo depois, você seria menos propenso a ajudar essa pessoa numa situação similar. A explicação para isso é simples. Devido às atribuições cínicas que o poder inspira. Seu poder sobre a pessoa lhe torna mais propenso a acreditar que ela fez o favor inicial por motivos egoístas, por querer se manter no emprego, ou querer lhe agradar e, portanto, é menos merecedor de reciprocidade. Além disso, a não retribuição ao favor, manterá a distância entre você e seus colegas de trabalho em posições inferiores a sua, embora conscientemente a maioria esmagadora não admita que seja desta forma, o inconsciente medíocre do homo sapiens fala mais alto.

3. O poder reduz a confiança.

Sempre foi dito que o amor faz o mundo girar, mas quando falamos da qualidade dos nossos relacionamentos com os outros, pode ser mais correto dizer que a confiança é o motor das relações sociais e amorosas eficazes. Quando nós confiamos em alguém, nós acreditamos que a pessoa vai agir com as melhores das intenções e com o senso de lealdade e fidelidade, mesmo quando não estamos lá para monitorar o seu comportamento. No trabalho, a confiança interpessoal é extremamente benéfica, não só porque nos faz sentir melhor trabalhar com pessoas em quem você confia, mas também porque economiza tempo e esforço.

Confiança não acontece do nada, ela se desenvolve. Por meio da troca de conhecimentos, troca de pequenas vulnerabilidades, um favor recebido. Uma situação embaraçosa de erro, compartilhada e resolvida mutuamente faz com que dois indivíduos construam um relacionamento caracterizado cada vez mais pela confiança. O poder coloca um impedimento nesse processo, criando um motivo para desconfiar dos atos de bondade dos outros. Os poderosos geram atribuições cínicas para as boas ações dos outros, e não conseguem retribuir com ações que mostrem suas próprias vulnerabilidades, portanto reduz a possibilidade de uma relação de confiança para se desenvolver.

Feitas as considerações acima, no cômputo geral, podemos ver que o poder tece uma teia psicológica um tanto quanto invejosa e cínica. No confronto de favores, o poderoso vê o egoísmo, a se recusa a retribuir, destrói a confiança e, finalmente, sente-se menos comprometido. São estes processos psicológicos e sociais que deixam os detentores de poder se sentindo cada vez mais sozinhos.

Para um líder visionário, surge a pergunta de como transpor essas situações. Pois bem. Muitos desses processos psicológicos ocorrem fora da consciência e podem ser difíceis de controlar. No entanto, um passo potencial é aumentar a consciência das diferentes esferas e papéis que se assume na vida, tanto pessoal como profissional – CEO, diretor, gerente, colega, parente ou amigo e os diferentes estados que se assume em cada um.

Procurar por padrões de comportamento das pessoas que nos cercam, se elas são geralmente generosas ou se só ajudam quando estão interessadas em algo em troca, pode trazer melhores sentimentos e resultados. Sem julgar, apenas analisar. Ao aumentar a consciência da situação, é mais fácil diferenciar o generoso do bajulador.  É também importante notar que os favores motivados por intenções egoístas não são necessariamente em nossa desvantagem, no curto prazo. Então, antes de ligar o self-defense e querer tomar cuidado em expor vulnerabilidades para esses doadores de favores e questionar instantaneamente, com frases do tipo: nossa, o que você está querendo hoje?, é bom se lembrar de dizer “obrigado”. Mostrar o seu apreço em pequenas gestos pode fazer maravilhas para criar uma relação de trabalho mais positiva.

A consciência dessa lente psicológica que o poder fornece pode ser a solução para se sentir socialmente conectado. Sem se deixar excessivamente exposto a bajuladores, interesseiros e egoístas.

Fazendo isso, os poderosos podem se sentar no topo. Nem sozinhos, nem vulneráveis.

Roberta Simão

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