Haverá impeachment? Uma nova situação a cada 10 dias

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Se a sociedade atual é a da pressa e a da urgência nas comunicações que devem ser instantâneas, também deve estar se mostrando um verdadeiro mistério para analistas sociais. Ondas, calmarias e tempestades não se ‘sucedem’ mais. Misturam-se confundindo conceitos. Perde-se uma linha sociológica, ganhando-se um misto. Misto de quê? De tudo. E de nada.

O fato da ‘reeleição’ de Dilma Rousseff já lhe garantiu análises totalmente contrárias às vontades de uma oposição aventureira. Mais ou menos como toda oposição costuma ser: difusora de caos e ingovernabilidades. Uma mentira que costuma ser ‘normal’ para observadores atentos, mas que causa verdadeiros estragos na sociedade.

Se o fato em si da reeleição já contou muito, dando direito a toda uma ala partidária  a Dilma de considerar ‘golpe’ as tentativas açodadas de impeachment, começam novos tempos difíceis de analisar. Primeiramente pela continuidade do assunto ‘impeachment’. É estranho o tema não arrefecer, não cessar. Não cansar. Não pense que poderia ser ingenuidade a oposição se ‘cansar’ do assunto. Mesmo temas que podem ter muito interesse de poder apodrecem.

Impeachment é um assunto que deveria ser tratado como algo historicamente raríssimo. Quase que uma infâmia na história de um país. Parece que no Brasil não vai ser assim.

O jurista Ives Gandra elaborou extenso parecer mostrando a possibilidade do impeachment. Miguel Reale Júnior desdisse Gandra, em certa medida, garantindo que do mandato passado não podiam ser requentados fatos que importassem no impedimento. Dois juristas mais ou menos do mesmo lado ‘político’, dizendo coisas bem diversas. Esta e outras ‘confusões’ teóricas, jurídicas, fáticas, expuseram grande dose de fragilidade, à época, sobre ‘aquele’ uso do impeachment.

Mas o curioso é que o tema vem desafiando o tempo. E não se enfraqueceu, como muitos apostaram.

Se Eduardo Cunha, presidente da Câmara já foi considerado o demônio da vez, prometendo vinganças políticas ‘mortíferas’, ainda que jurasse que não seria o Cunha-vingança, cuidou de sair da berlinda com suavidade. Conseguiu tirar de si, em grande parte, um estigma de carranca cênica que lhe pesava completamente.

Paralelamente, Michel Temer tomou seu lugar, saindo de uma híbrida e obscurantíssima vice-presidência para uma situação de proeminência publicitária no campo personalista. Declarações, encontros, almoços e agenda. Tudo passou a ser patrulhado por uma imprensa ávida. Mas a imprensa já é outro capítulo. Novamente, Temer sempre jurando que não conspira. Mas em política quanto mais se jura, mais se sabe que não é bem assim.

Paralelamente, a sociedade ganha novos reforços. Blocos coesos políticos passaram a falar em impeachment não mais desorganizadamente.  Este tipo de união, naturalmente legítima, é por demais perigosa para a estabilidade de Dilma.

Encarregando-se de pôr lenha em toda essa fogueira, a tal da imprensa ávida, não apenas tirando casquinha, mas lucrando grosso para sobreviver comercialmente com os escândalos do dia a dia. Triste o papel, mas parece que a demanda social é só isso mesmo: sangue, e quanto pior melhor.

Talvez politólogos sérios não consigam mais fazer uma previsão minimamente segura sobre o impeachment. O instituto ainda se mostra, obviamente, totalmente blindado por uma Constituição da República serena e responsável. Mas o poder de uma sociedade irada – se é que há essa imagem – é simplesmente devastador. Até interpretações jurídicas que deveriam ser as mais serenas em cortes superiores e supremas se mostram, às vezes, historicamente, capituladas às massas. O que se dirá de uma assembleia ou câmara de políticos profissionais exclusivamente preocupados com reeleição e ficar bem na foto com uma sociedade que eles mesmos imaginam existir.

Haverá impeachment? No início do ano a resposta a esta pergunta era muito mais fácil. Paradoxalmente, com o passar do tempo e o tema não tendo azedado, a resposta começa a se descolar de alguma ‘razão’.

Uma coisa é certa. Do mesmo jeito que muitos iludidos acharam que a Constituição da República iria ‘inaugurar’ um novo Brasil e ser o remédio de tudo, e estavam 100% enganados, o impeachment de Dilma Rousseff não seria o fim de um ciclo, mas o início de uma devastação. Os políticos e as ‘autoridades’ não pagariam muito com isso. Continuariam em suas mansões e fazendas. Já a sociedade arcaria com um preço absurdo.

Parece que o impeachment é a esperança dos enlouquecidos. Mas numa democracia, se eles forem a maioria, que venha a loucura. Não há médico para isso. Só uma próxima eleição regular e legal. OBSERVATÓRIO GERAL.

[Artigo republicado no BRASIL 247]

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